Quarta-feira, 19 de Março de 2008

CORNOS DE CABRA

 

Acho que seria essa um dos possíveis significados da palavra capricórnio. Como quase todo o mundo sabe, capricórnio é um dos nomes dos vários signos do zodíaco. Abrange um período que vai de 21 de dezembro a 19 de janeiro. As pessoas que nascem nesse período são astrologicamente denominadas de capricornianas. Antes que eu me esqueça e antes que me cobrem, estou falando do horóscopo ocidental, esse que vemos comumente em jornais, revistas e alguns programas vespertinos de televisão. Dizem que esse tipo de horóscopo é originário da Babilônia, se bem que alguns garantem que veio do Egito. Há aqueles que afirmam que veio da Pérsia e outros, da Fenícia. Seja como for, esse capricorniano de que falo não tem nada em haver com aquela cabra que faz parte do horóscopo chinês, certo?

 

  Persistência, determinação são as características marcantes dos nascidos sob esse signo, que aliás, não é bem uma cabra. Já notaram que esse animal mais se parece com a mistura de cabra ou bode com sereia? Dos meus tempos de esoterismo, eu guardei a informação de que, entre outras características, o signo de capricórnio representa aquele período em que a terra toda se recolhe, para ressurgir mais tarde com toda sua força. O período de recolhimento corresponde ao inverno e o de ressureição, à primavera. Com isso, fica demonstrado que toda a simbologia dos signos zodiacais se baseia nas estações do ano, no hemisfério norte. Até onde eu sei, de dezembro a janeiro, nós do hemisfério sul, não estamos nem um pouco recolhidos. Pelo contrário - estamos botando quase tudo pra fora e alguns mais assanhados botam mesmo, tamanho é o calor que nos castiga.

 

  Na minha família havia quatro representantes deste signo. Eu, minha mãe, a mãe dela e a irmã dela. Tá meio confuso? Aqui vai uma redação mais simples: eu, minha mãe, a mãe de minha mãe e a irmã de minha mãe, ou seja, eu, minha avó materna e minha tia materna.Espero que agora tenha ficado claro. Dessa troupe toda, só restou eu - minha mãe e minha avó passaram a habitar o andar de cima há mais de quatro décadas. Minha tia, mudou-se para lá recentemente, há uns oito anos. O interessante é que todos desse grupo nasceram ou no dia 25 de dezembro ou no dia 6 de janeiro. Falando a verdade, somente minha tia nasceu no dia 6 de janeiro. Minha avó, minha mãe e eu nascemos no dia 25 de dezembro. Segundo comentam na família, nascemos em horários muito próximos, entre 7 e 9 horas da manhã. Se houvesse uma curso de superior de formação de astrólogos, essa estranha coincidência seria, com toda certeza, tema de uma tese de doutorado ou mestrado.

 

  De minha avó sómente tenho uma recordação e ainda assim, muito vaga. Lembro-me de vê-la em uma cadeira, na cozinha da casa em que morávamos. Não tenho certeza, parece que estava com uma saia comprida de cor escura, blusa de gola fechada e mangas compridas e usava um birote, prendendo os longos cabelos brancos, no alto da cabeça. Nessa época eu deveria ter uns quatro ou cinco anos. Minhas irmãs contavam que era uma benzedeira de mão cheia, curava tudo, de catapora a tosse cumprida. Sempre achei minha avó meio bruxa. A saga familiar relata que era dona de um temperamento meio durão, dificilmente recuava de uma decisão. E é usado como ilustração, o fato de ela, no leito de morte, sem já poder falar, não ter perdoado minha tia, por uma coisa que esta tinha feito. Não sei o quê essa minha tia aprontou, mas contam que ela pedia perdão, aos prantos. Minha avó, apenas balançava a cabeça, negando o perdão. Eu, hein?

 

  Minha mãe, pelo pouco tempo em que convivemos, tinha um temperamento mais flexível. Era uma criatura quieta, calada, calma e resignada. Nos quase vinte anos em que convivemos, não me recordo de tê-la visto reclamar das dificuldades da vida, fofocar a respeito de alguém ou brigar com o meu pai seja por que motivo fosse. E vejam que, até onde me recordo, nesse quase vinte anos, motivos para tanto não faltaram. Era paciente e determinada, percorreu essa existência, suportando com "jobiana" paciência os sopapos e empurrões dessa vida. Não tinha defeitos? Tinha sim - de vez em quando me dava umas surras, sempre imerecidas,claro.

 

  A morte de minha mãe, foi completamente inesperada. Na manhã de uma segunda-feira de janeiro, estava costurando uma roupa para uma de suas netinhas. Enquanto costurava, conversava com meu pai. Estava um pouco irritada com ele, pela falta de paciência que demonstrava no trato com os netos. Foi então que meu pai disse alguma coisa e minha mãe respondeu-lhe, perguntando se ele nunca fora criança. Em seguida, deu um suspiro profundo e caiu sobre a máquina de costura, já sem vida. Fora um infarto e dos bravos que a levou dessa vida para outra melhor. 

 

  A irmã dela, ou seja, minha tia, bem - foi uma das mulheres mais belas que conheci. Se tivesse nascido na França, na Itália ou Estados Unidos seu rosto, com toda a certeza, teria aparecido em alguma tela de cinema, ao menos uma vez, pelo menos como figurante. Ao contrário de minha mãe, era mais extrovertida, fato esse que aliado à sua beleza, trazia-lhe muito sucesso em relação aos homens. Parece que ela soube tirar muito proveito da conjugação dessas duas qualidades, arrasando centenas de corações. Alguns desses corações eram de namorados de amigas, vizinhas e conhecidas. A estória da família relata que esse roubo de corações não ficou impune. Certa vez, passando em frente à porta da casa de uma dessas "amigas" , minha tia foi por ela abordada e levou uma surra de cabo de sombrinha, a título de vingança. Além disso, essas vizinhas, amigas e conhecidas revoltadas juntaram-se a alguns parentes de minha família e criaram, alimentaram e atribuiram a essa minha tia, a fama de sirigaita . Fama que levou até a cova.

 

  Minha tia casou-se nova, como era o costume da época e não teve muita sorte no casamento. Enviuvou logo depois, com menos de dez anos de casada. Com muita garra, criou meus primos, vendendo marmita, dando pensão para professoras, lavando roupa para as ricaças da cidade onde morava. Acredito que por desgosto pela morte do marido, após seu falecimento, cerrou as portas para a vida afetiva - nunca mais se interessou por homem algum, embora oportunidades não lhe faltassem.  Deixou as amizades de lado e desenvolveu um tipo de humor caustico, ferino. Era capaz de acabar com o dia de alguém com um olhar ou com uma palavra. Foi então criando um estilo de vida cada vez  mais recluso, onde as poucas distrações eram ir ao cinema, passar as férias de verão com a minha família e ler contos policiais antes de dormir. Tinha pilhas e mais pilhas da "X-9", nome de uma revista de contos policiais, muito famosa na época. E nessa reclusão enrijeceu, envelheceu e morreu. Fez de sua morte uma piada de mau gosto, diga-se passagem. Ela faleceu no Dia das Mães e na véspera (no sábado),  recebeu uma ligação de minha prima, sua filha. Esta contou que estava ligando para cumprimentá-la pelo dia das mães. Explicou que  ligara na véspera, pois assim poderia falar com ela com mais calma, já que no domingo seus próprios filhos e netos iriam até sua casa para almoçar. Disse também que assim que pudesse, compraria e enviara para ela o presente do dia das mães. Conta-se que minha tia ouviu toda essa explanação em silêncio, sem dizer um "a" siquer. Alguns segundos após minha prima ter terminado de falar, minha tia disse que o maior presente que Deus poderia lhe dar no dia das mães, seria  levá-la dessa vida para outra. Completamente desconcertada e quase em prantos, minha prima encerrou a conversa, não antes sem pedir a benção da mãe. Acontece que um anjo presenciou aquela conversa e disse amém. No dia seguinte, Dia das Mães, um belo e ensolarado domingo de maio, minha tia levantou-se no horário de costume e foi tomar banho, como de costume. Foi quando então recebeu o presente que tanto pedira a Deus - teve um infarto e, apesar de socorrida a tempo, já estava morta quando seu corpo deu entrada no hospital.  

 

  Não sei se minha avá morreu de infarto. Entretanto, dessas três representantes de Capricórnio percebo que o traço comum é a determinação que surge em situações ásperas. Minha avó, negando o perdão à minha tia, ali, bem na hora de sua morte. Creio que qualquer mortal deva estar muito, mais muito bem convencido e determinado para negar o perdão para alguém, num momento da vida tão extremo, como é a hora da morte. Minha mãe sofrendo em silêncio, mas não se dobrando às durezas da vida que tevem, carregando sua cruz com classe, como se dizia antigamente. E minha tia, se encerrando naquela reclusão após a morte do marido.  E assim chego ao final de mais um post, ou artigo, como queiram.

 

  Antes que me encostem na parede, já vou dizendo que não falei de mim. Não se esqueçam que nessa família, eu sou daquela turma que nasceu em 25 de dezembro. Falar de si mesmo é uma coisa meio complicada não é mesmo? Que o digam aqueles que já passaram por algum processo de psicoterapia. Bem...antes que alguém cometa suícidio em protesto, prometo que um dia eu posto um post, falando tudo sobre mim, "all about me", "all about Eve", "tudo sobre minha mãe".

 

  

 

 

 

sinto-me: no ponto de fio de ovos
publicado por cacá às 01:45
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