Sábado, 3 de Fevereiro de 2007

ROÇANDO NO ÔNIBUS

Nos últimos tempos andar de ônibus, coisa que já não era lá muito confortável, transformou-se num verdadeiro sacrifício. Talvez, visando a redução de custos e com isso elevar um pouco mais ainda seus lucros, os ônibus reduziram visivelmente seu espaço interno. Ficaram menos altos, corredor mais estreito, o espaço entre um assento e outro foi diminuído de tal forma que, aquela sensação de se estar comprimido dentro de uma lata de sardinhas aumentou e muito.

 Assim,  o que era antes uma coisa simples, como o fato de ir até a catraca para pagar sua passagem, transformou-se numa verdadeira odisséia, uma corrida de obstáculos, criando situações por vêzes risíveis, por vêzes constrangedoras para a maioria dos passageiros. Nos dias de hoje, praticamente todos os passageiros portam sacolas, mochilas, bolsas em sua ida para o trabalho. Tais objetos trazem dentro de si uma variada gama de coisas: agendas, cartões de banco, celulares, talões de cheque, bilhetes para pagar o transporte, carteiras, estojos de maquiagem, calcinha, absorvente, camisinhas, lubrificantes, cueca e porque não, marmita. Sim, isso mesmo, uma marmita, já que uma considerável parcela da população que usa esse tipo de coletivo, faz questão de comer a comida feita pela mama ou pela esposa, amante ou caso. Matam dois coelhos com uma só porrada - comem melhor e pagam bem menos.

 No entanto, a conjugação desses dois fatores-  diminuição da área de circulação dentro dos ônibus e passageiros portando penduricalhos de tamanho considerável, tem criado situações bizarras e cômicas. Já ouvi vários relatos de pessoas, cujo olfato foi atingido, em plena oito horas da manhã, pelo cheiro de feijão com linguiça, arroz, ovo frito. Culpa de algum comilão que não vedou bem sua marmita e mochila, fazendo com que essa última se abrisse, facilitando a queda da outra, a qual atingindo o solo do ônibus, abriu, deixando vazar seu conteúdo cujo cheiro é, via de regra, desagrável naquele horário do dia. Ou então, de pessoas que estavam sentadas, lendo o seu jornal favorito. De repente, sem mais, nem porquê, vê cair justamente na página que está lendo, um objeto pequeno, de forma retangular, feito de um tecido bem leve e delicado e que parece estar manchado de sangue. Segundos depois, percebe que se trata de um absorvente feminino (seria isso um pleonasmo?), o qual por inexperiência, imperícia, imprudência ou incúria de sua usuária foi colado dentro de sua bolsa ou mochila, que mal fechada se abriu, deixando cair aquele objeto, denunciando assim a condição fisiológica de sua portadora.

 Quando o passageiro é do tipo que tem peso maior que o maioria da população, a situação se complica mais ainda. Já devidamente espremidos naquele corredor polonês, os pobres passageiros se dobram qual frágeis arbustos ante a passagem daquele katrina de músculos e ossos. É comum nessas ocasiões ouvir-se pessoas reclamando baixinho, outros dirigindo olhares ferinos para o dito passageiro, enquanto outros dão suspiros, tossem ou emitem grunhidos e outros ruídos impublicáveis. É também muito comum nesses momentos, os passageiros que estão sentados, terem o alcance de sua visão subitmente dimuído por  todo o tipo de penduricalho usado pelos passageiros do assim chamado sexo frágil e, por alguns outros que, não sendo do mesmo sexo, usam os mesmos tipos de adorno. Dessa forma, pulseiras, brincos, colares, pendem de pescoços, pulsos e orelhas, como cortinas turvando a visão dos que estão sentados.

 Na sexta-feira, eu tomei o Jabaquara-Tremembé para ir ao trabalho. Já estava um pouco atrasado, de modo que percebendo que o ônibus estava lotado, não pude me dar ao luxo de esperar pelo próximo. Dei o sinal, ingressei no ônibus, me acomodei como pude antes da catraca. Sempre desço no último ponto da Vinte e Três de Maio, não havendo por isso, necessidade de enfrentar aquele mar de mochilas e bolsas, já que onde eu desço, desce também a maioria dos passageiros. Um fato muito engraçado aconteceu. Há um ponto de embarque na altura da Beneficiência Portuguesa e ali entrou no ônibus uma senhora baixinha e bem acima de seu peso. Trajava um vestido justo, com decote meio arredondado, cuja borda era ornamentada por uma espécie de bordado, todo feito de uma coisa que parecia vidrilho. Pois bem - essa senhora, ao se dirigir para a catraca, encostou-se numa outra que estava em pé, a meu lado. Por um desses caprichos da sorte, um dos vidrilhos do decote, se enganchou nas costas da blusa da outra, transformando-se num sério problema a ser resolvido, pois era visivelmente um obstáculo ao direito de dir e vir de sua portadora, a passageira baixinha e bem acima do peso. Bastante constrangida, pedindo desculpas o tempo todo, tentava essa passageira desenroscar o tal vidrilho. Só que para fazê-lo era obrigada a se encostar mais ainda na vítima e, como o ônibus corria um pouco, para não cair, a baixinha, dona do decote, se viu obrigada a enlaçar a outra pela cintura, enquanto tentava soltar o maldito do vidrilho. Olhando de longe parecia que a baixinha estava encoxando a outra, roçando como se fosse uma cadela no cio. A vitíma desse roça-roça involuntário estava vermelha como uma pimenta, grunhia alguma coisa. Alguns senhores e senhoras presentes faziam de tudo para conter o riso.

 Para alívio de ambas, o vidrilho tarado se soltou e sua dona passou voando pela catraca. Descemos no mesmo ponto, na Avenida Vinte e Três de Maio. Ela subiu correndo a Rua do Ouvidor, dobrou na Rua Riachuelo e desapareceu. Espero que tenha tido um bom fim de semana.
 

sinto-me:
publicado por cacá às 16:52
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