Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

OS EMBALOS DE SEXTA, À TARDE

Todo o mundo lembra do pobre velhinho, office-boy,  que foi tragado pelo buracão que surgiu, quando a estação da linha  quatro do Metrô de Pinheiros desabou. Segundo relato dos parentes e amigos, havia a possibilidade de ele estar naquelas redondezas trabalhando, quando a coisa aconteceu. Por insistência dos parentes e, depois porque os cães farejadores começaram a dar sinais de que havia alguém mais soterrado, a polícia resolveu prosseguir nos trabalhos de busca. E no final de semana passado, encontraram o corpo do pobrezinho, cinco metros abaixo de onde estava o micro-ônibus. Nesse meio tempo, uma espécie de pequeno circo foi armado pela imprensa escrita, falada e televisada, com a ajuda dos parentes da vítima e claro, de seus amigos e conhecidos.

 Entrevistou-se várias pesssoas do bairro onde o infeliz morava. Todos foram unânimes em ressaltar as virtudes do tragado, digo, falecido. Era uma pessoa exemplar, sem vícios, adorava seus netinhos. Boa praça, não tinha inimigos e vai por aí afora. E tudo isso dito com a voz embargada e os olhos marejados.  Todo o mundo depois que se muda para o andar de cima, vira santo.É assim que tem sido, porque haveria de ser diferente agora?

 Uma vez encontrado seus restos mortais, realizou-se seu enterro. Não sei se alguma das autoridades envolvidas na tragédia, compareceu a seu funeral. Bem, o corpo foi depositado em sua última morada ao som de palmas e lágrimas dos amigos, parentes e curiosos em geral. Para a surpresa de todos, mal o corpo tinha baixado à terra, o que vem à tona? Algo que deixou todo o mundo de queixo caído - a polícia encontrara treze saquinhos plásticos, recheados de cocaína, num dos bolsos da calça do até então, insuspeito e bom velhinho. Em outras palavras - ser office-boy, para ele era um bico, um emprego de fachada, para disfarçar a sua verdadeira atividade profissional -  pombo-correio de traficantes de cocaína. Ou seja, o serviço do qual ele dava conta, naquele dia, vagando pela Rua Capri, nada mais era que entregar a muamba, pegar a sua comissão, que suponho era muito maior que seu soldo como office-boy. Depois, voltaria para seu sacrossanto lar, mas antes passaria pelo boteco pra tomar uns paratis com os amigos, compraria balas e doces para seus netinhos e repousaria a cabeça no travesseiro, para ter o sono dos justos. Só que  o buracão interrompeu o infame fluxograma das atividades desse vetusto meliante. Buracão este que seu anjo-da-guarda, devidamente "colocado" e mocozado em alguma nuvem de terceiro escalão, não percebeu, não podendo assim dar assistência em tempo hábil a seu exótico protegido.

 Eu soube do fato no trabalho, antes do almço. Fui atacado por uma crise de riso, porque ficava imaginando o susto e a trabalheira que essa morte causou nos componentes daquela sinistra cadeia de consumo. Deve ter havido de tudo - desde sumiços repentinos e inexplicáveis até planos mirabolantes para o resgate das drogas, quer fosse no buracão, quer fosse no velório ou quem sabe, na sepultura. No entanto, uma conclusão é correta - quem vê cara não vê coração. Creio que não passaria pela cabeça de ninguém imaginar que aquele senhorzinho, tão gentil, tão dedicado , carregava pacotinhos da "branquinha", ao invés de balas e confeitos para seus netinhos. Lembrei-me daquela vez em que a apresentadora Lilian Witte Fibe foi também acometida de ataque de riso, quando relatava o caso de uma senhorinha de seus oitenta e tantos. Ela e seu namoradinho, um jovem de uns cincoenta e três anos, foram detidos num aeroporto de uma cidade da Europa, quando tentavam embarcam com não sei quantos compridos de esctasy. Detalhe um - o namoradinho supunha tratar-se de Viagra. Detalhe dois - a velhinha estava numa cadeira de rodas.

 Uma das chaves do humor é o contraste, que pega o ouvinte de surpresa. Como na estória do casal da "melhor idade" e no caso do velhinho do buracão, o contraste surge entre as qualidades atribuídas às personagens e ações criminosas que praticavam. Como se diz por aí, virtude e vício não escolhem - são escolhidos.

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publicado por cacá às 01:25
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Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007

Marilyn e Bob

Quarta-feira, véspera do aniversário da cidade, antes das dez horas saio do metrô Brigadeiro e quase que disparo em direção da esquina. Já estava um pouco atrasado para a consulta médica. Um dia um tanto quente, neste verão meio chocho que acontece nesses tempos pós-protocolo de Kioto. As calçadas, formigando de gente de todos os tamanhos, de todos os coloridos, de todas as formas. Dobro a esquina, meu corpo ingressa na Brigadeiro e de repente, deparo com o simpático casal - Marilyn e Bob.

Ela, no viço de seus quase vinte anos, de formas não tão exuberantes quanto à sua inspiradora. Fazia uma Marilyn um pouco mais enxuta, uma Marilyn minimalista,  para usar uma terminolgia adequada a esses nossos tempos de pós-qualquer coisa. Rosto risonho, tagarelando, bastante expansiva, loiríssima, usava um vestido branco de mesmo feitio que o outro, o original, aquele que foi usado na famosa cena do respiradouro do metrô. Para quem não sabe do que estou falando, quero lembrar que: a ) Marilyn Monroe foi uma estrela muito famosa na galáxia de Hollywood, b) faleceu em agosto de 1962, consta que a causa mortis foi suicídio, c) consta que teve um casinho amoroso com o um dos presidentes mais famosos dos Estados Unidos, John Kennedy, d) entre os filmes que realizou, um deles teve o título brasileiro de "O Pecado Mora ao Lado", acho que é isso, em inglês o título era "Seven Years Itch", e) é desse filme a famosa cena que ela aparece, em pé sobre o respiradouro do metrô, tentando com as mãos evitar que a saia do vestido suba além do necessário, levantado que foi pela ventania provocada pela passagem dos
 trens no túnel do metrô.

Deixando Marilyn de lado, Bob...bem Bob era feito por rapaz alto, um tanto magro, não muito minimalista, também na pujança de seus vinte e poucos anos. Calça preta, camisa de mangas compridas vermelhas como os Bob originais e aquele chapelão que mais lembra um gigantesco panetone, também como os Bob originais. Ao contrário de Marilyn, estava circunspecto, não sisudo. Oferecia o braço para a sua tagarela e exótica companhia, parecia o soldadinho de chumbo dos contos da Carochinha. Para quem ainda não sacou do quê estou falando, quero lembrar que Bob é nome pelo qual são apelidados os guapos rapazes que compõem a guarda real de sua alteza, Elizabeth II, rainha da Inglaterra.

Quando meu olhar avistou esse bizarro casal, meu corpo freou como que por instinto. Apesar da pressa, consegui reservar alguns instantes, o suficiente para notar o estranhamento provocado pelo casal. Antes que atravessassem a Paulista e regressassem para o túnel do tempo, notei que uma garotinha arregalou os olhos, talvez um pouco assustada. Já o garotinho que surgiu alguns transeuntes depois, sorriu - pela expressão do seu rosto conclui que sorria de Bob. Uma senhorinha de preto, apenas olhou. Umas aborrescentes lançaram flechas oculares para Bob. E eu - bem, eu me postei ali, alguns metros depois da esquina, observando o casalzinho se dissolvendo na multidão. Saindo daquele universo paralelo, um pedaço de minha alma conseguiu acompanhar Bob e Marilyn, por alguns momentos. A outra, retomou o caminho para o consultório médico. Juntaram-se alguns minutos depois, numa sala imaculadamente azul, cheirando a ar condicionado. São Paulo, você me deixa de quatro.

sinto-me:
publicado por cacá às 02:39
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Domingo, 21 de Janeiro de 2007

O PRAZER É TODO MEU

Criei esse blog há alguns dias e até agora não inseri nenhum texto. Estava meio ressabiado, desconfiava que o blog já fora fechado, pois entre o dia da criação e o dia da primeira postagem o tempo transcorrido fora considerável. Tanto assim, que fui dar uma espiadinha na página, lá em Portugal. Como tudo estava ok, certinho, então aqueci os dedinhos, encostei-os no teclado esperei que viesse a inspiração. Como esta demorou, resolvi começar sem ela mesmo.

Bem, todos os manuais de blog que conheço recomendam que se deve começar um blog pela apresentação do blogueiro. Então, se é assim, lá vai: o meu nome é Luiz Carlos, nasci em Londrina, a cidade mais linda do mundo, no estado do Paraná. Sou do signo de Capricórnio, e portanto, nasci em um dos dias compreendidos entre 22 de dezembro e, alguns dizem 20, outros, 19 de janeiro. Antes que alguém se suicide de curiosidade, nasci no dia 25 de dezembro, as 7:30hs da manhã. Minha mãe sempre contava que por ocasião de meu nascimento, viera de São Paulo, a irmã caçula de meu pai, a tia Cedina. Pois bem - essa minha tia, que naqueles idos tinha lá seus 26 ou 27 anos, era do tipo festeira. Adorava bailes, quermesses, carnaval e outras coisas do gênero. Como meu pai também tinha gosto muito semelhante ao dessa minha tia, o resultado não poderia ser outro. Papai convidou todos seus amigos para a ceia, a casa ficou abarrotada de gente e a ceia se transformou num baile, que terminou bem depois da hora de meu nascimento. Jesus foi saudado por um coro de anjos, balido de ovelhas, o canto do galo, a brisa noturna e a estrela Dalva. Eu fui saudado por um bando de foliões, comando por uma tia meio maluca. Acredito que isso teve algum reflexo em meu comportamento - não posso escutar música de carnaval, sem sentir aquele ímpeto quase incontrolável de sair dançando. Essa minha tia, depois de meu nascimento, voltou para São Paulo e nunca mais deu notícias. Só fomos reencontrá-la quinze anos depois. Claro, estava um pouco mais envelhecida, mas a queda pela festividade e algazarra decorrente continuava a mesma.

Duas coisas que sempre me deixaram frustrado por ter nascido no mesmo dia em que nasceu o Salvador - nunca pude dar uma festa de aniversário e nunca ganhei dois presentes durante o ano. Explico melhor - desde pequeno notei que meus irmãos e meus amigos faziam festa de aniversário, na qual ganhavam presentes, para compensar o fato de terem vindo ao mundo. E que, também por ocasião do Natal, eram presenteados para compensar não sei o quê. Comigo, a coisa era outra. Como minha casa sempre esteve cheia de gente nessa data, poucas pessoas, e as vêzes somente minha mãe e meu pai se lembravam de meu aniversário. Todos, sem exceção davam parabéns para minha mãe, que, esqueci de contar, nascera no mesmo dia, o mesmo acontecendo com a mãe dela, minha avó. Eu, contudo, ficava pelos cantos da casa meio esquecido. As vêzes, lá pelas tantas do dia 25, alguma alma caridosa se recordava do fato de eu ter vindo ao mundo naquele dia e se encarregava de comunicar esse tão auspicioso fato para os que ainda estavam na casa. Então, eu era cumprimentado, abraçado e beijado por todos. Eu ficava com uma cara de coqueiro na praia e não raro,  meio lambuzada da saliva etílica de alguns daqueles que me parabenizavam. Sentia que os cumprimentos, beijos e abraços eram genuínos, contudo, tinham uma pontinha de sentimento de culpa. Presentes que é bom, nada , né? Devo confessar que tais fatos não deixaram marcas em meu caráter - não provocou nenhum tipo de desajuste social. Faço essa ressalva, porque hoje em dia, se fulano esfaqueia, enforca ou mata  cicrano sempre surge alguém que atribue o funesto acontecimento a algum trauma de infância.

Já crescidinho, compreendi que era impossível fazer uma festa de aniversário - ninguém compareceria!  É mais ou menos óbvio - os adultos, não terão disposição depois de uma noitada de comes e bebes e porres de causar inveja a Baco e companhia. Além, é claro, da ressaca violenta que costuma acompanhar esse tipo de proceder. As crianças - estarão entretidas a brincar com os presentes que ganharam, além do que crianças não são muito solidárias, faz parte da natureza delas...Como eu me recusava e ainda me recuso a comemorar meu aniversário na véspera ou no dia seguinte, o resultado foi que nunca promovi nenhuma festividade para comemorar meu nascimento. E, ironia das ironias - atualmente, a maioria das pessoas se lembra de mim, nessa tão festiva data, me cumprimentam, dão parabéns. As mais solidárias, julgo eu, perguntam se não vou fazer nenhuma festinha. E quase sempre respondo com um grunhido. Se eu o fizesse e a convidasse, tenho certeza de que tal pessoa seria a primeira a tirar o corpo fora. "Ai, sabe como é, né? Amanhã, tenho que almoçar com minha sogra, ou mãe, ou coisa que o valha".

Será que isso já basta como apresentação? Acredito que sim. Falta explicar o porquê dessa caravela que ilustra o post. No entanto, isso será assunto para outra ocasião. Até lá, inté...

 

 

sinto-me:
publicado por cacá às 15:15
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