Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007

UMA MISS DO BALACOBACO

A família se compõe por uma mãe na casa dos quarenta. Não fica claro onde trabalha e o que faz, tem-se a impressão que ela é secretária ou algo parecido. Simpática, assume o papel de botar panos quentes, apaziguar  conflitos, manter a família unida, ainda que precariamente. O pai, um cara bonitão, idade muito parecida com a da mãe, é um pobre coitado !Acredita piamente no esfarrapado dogma americano de que, quando se tem vontade, tudo se consegue. Para sobreviver, passa os dias ministrando palestras ou conferências a respeito de um livro que ele mesmo escrevera, mas que nunca conseguira publicar. Tal livro tem como tema central um programa de nove ou dez passos para se alcançar o sucesso. O filme inicia com ele terminando mais uma de suas palestras, para uma meia dúzia de tristonhos e nada motivadores gatos-pingados. O irmão, um adolescente cujo maior sonho é o de ser piloto da aeronáutica. Mais tarde descobrirá que, por um descuido da mãe natureza, seu sonho nunca será concretizado. O pobre é daltônico, está de ante-mão reprovado, fora, excluído. Nos primeiros fotogramas, fica-se sabendo que ele, após ler Nietze, fez um voto de silêncio que durará até ser incorporado à aeronáutica. Fazendo parte acidental desse núcleo, o irmão gay, não sei se da mulher ou do marido. Recém saído de uma tentativa de suícidio, é retirado do hospital e levado para a casa. Algumas cenas depois, teremos noção de seu drama - professor de Literatura de uma universidade, especialista e conhecedor profundo da obra de Marcel Proust, apaixona-se perdidamente por um de seus alunos. Perde o rumo, o prumo quando o objeto de sua paixão é arrebatado por um professor rival. E pira de vez, desistindo de viver, quando o mais cobiçado prêmio em Literatura é ganho pelo mesmo professor, que já havia-lhe roubado o romeu de sua vida. Fechando o quadro, o avô, pai do pai, suponho eu. Recém egresso de casa de repouso, de onde fora gentilemente convidado a se retirar. Tudo, porque tinha um comportamento heterodoxo para pessoas de sua idade. Entre outras coisas, ele era bem chegado em drogas pesadas,  especialmente heroína.

É no meio desse universo cambaleante, de perdedores, como dizem nossos irmãos do norte, que encontramos a garotinha, filha do casal desenganado, irmã do adolescente taciturno, neta do avô pirado e sempre "colocado" e sobrinha de um tio com fortes tendências suicidas e depressivas. É no meio desse universo de poucas luzes , que reluz a simplicidade,  inocência, espontaneidade e o entusiasmo de nossa pequena heroína, que  será chamada de Sunshine daqui por diante, já que esqueci completamente o nome da personagem.

O filme se desenvolve em torno da viagem dessa família até Los Ângeles, onde Sunshine iria concorrer ao título de pequena miss Sunshine. Fiquei com a impressão de que esse concurso era uma espécie de treinamento para Miss Universo. De qualquer modo, a garotinha entrou nessa porque, numa das eliminatórias ficara em segundo lugar e porque também a primeira colocada não pode mais participar. Coisas do destino! O seu entusiamso quando soube da notícia, desperta os brios da família que se une em torno do projeto de levá-la até Los Ângeles, onde será realizada a final. Como estão duros, vão de quatro rodas mesmo. E o veículo é uma pobre van, quase uma lata velha, que algumas centenas de quilômetros depois pifa, obrigando seus passageiros a empurrá-la depois de cada parada. Alguns quilômetros antes da chegada, o avô morre e, não podendo parar para proporcionar-lhe um funeral adequado, a família decide depositar seu corpo no porta-malas da van.Chegam em cima da hora, quase não conseguem a inscrição. Entretanto, como acontecem em filmes desse tipo, essa pedra no caminho de nossa heroína é removida e, afobados entram todos no local do concurso. Sunshine e sua mãe correm em disparada ao camarim, iniciando os preparativos para sua apresentação. Um detalhe importante: sabe-se que no número que apresentará na prova final, há o dedinho do avô. Mas, não se sabe absolutamente em que ele consiste.

Enquanto Sunshine se arruma, no palco desfilam as outras pequenas  concorrentes - meninas, miniatura de mulheres, ou melhor, simulacros decadentes de feminilidade! Pintadas, maquiadas em exagero, penteados à la anos sessenta (ou a época do filme é dos anos sessenta?). E, sendo assim, dá-lhe muita cor berrante, muito cabelo armado no melhor estilo panetone, muito laquê, muito rímel, muito de tudo. Os números apresentados não fogem ao trivial infantil - pulinhos, saltos, cambalhotas, declamações, gracinhas, essas coisas que os adultos acham que as crianças devem fazer, quando chegam visitas em casa. Essa corrente de bobagens é interrompida quando chega a vez de Sunshine. Vestida como se deve vestir uma criança, com simplicidade e elegância. Com segurança e determinação, diz que a dança que apresentará é dedicada a seu avô (pelo menos, eu tenho a impressão que ela disse). A fita é colocada e a nossa pequena notável dá os primeiros passos, deixando bem claro que sua apresentação nada tem em comum com a das concorrentes. E não tem mesmo - à medida que os compassos vão se sucedendo, o que se vê não é uma menina e sim, uma mulher dançando no melhor estilo "boquinha da garrafa". Requebra, rebola, passa língua nos lábios, remexe os quadris, lança olhares sensuais à platéia. A câmera vai lentamente deslizando, mostrando uma platéia escandalizada, atônita e, quando volta para o palco vemos uma Sunshine tirando as primeiras peças de sua roupa, sinalizando que tudo aquilo vai terminar em strip tease. É então, que entra em cena a hipocrisia de nossa moral - levantando a bandeira da família e dos bons costumes, a presidente do júri entra no palco e convoca o pai da pequena a acabar com aquilo tudo. Relutante, ele sobe ao palco, hesita um tanto e solta a franga, ou seja, adere ao rebolado da filha. Era o gesto que faltava - o restante da família se coloca em cena, e como crianças dançam com o mais puro prazer. A cena termina com a família de mãos dadas, em ciranda, esbanjando alegria de viver. Evidentemente, são expulsos do palco, da cena e do concurso.E aprendem uma lição - nesta sociedade é permitido ter uma aparência revolucionária e só - que ninguém ouse ir mais além. Lembrei-me de um filme que vi, há anos atrás. Era um filme do Jean-Luc Godard, onde uma professora (Annie Girardot ou Anouk Aimée?) dizia para um aluno seu - seja radical, exija o impossível!

Quando o filme termina, o avô já foi enterrado e o restante da família retorna para a van. Há um clima de resignação, de sonho que  acabou, de que tudo não passou de brincadeirinha. A pequena Sunshine conserva o semblante sereno, enigmático como uma esfinge. 

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publicado por cacá às 01:04
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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

A ESTÓRIA DE UM RIFLE OU BABEL

Era uma vez um executivo japonês que foi passar férias no Marrocos. Lá chegando,  incluiu algumas atividades ligadas ao tiro em seu roteiro turístico. Nesse sentido, foi muito bem assessorado por nativo de nome Hassam. Tão bem Hassam desempenhou seu papel, que o executivo japonês, em sinal de gratidão  presenteou-o com o rifle antes de sua partida. Voltou para o Japão, dando sequência à sua vida de executivo, pai de uma garotinha surda, de mais ou menos uns 17 anos, jogadora de voleibol, em plena montanha-russa emocional como costumam ser os adolescentes. A mãe e esposa cometera suicídio, não se sabe quando e de que forma.

Enquanto isso acontecia, na terra árida do Marrocos, Hassam resolveu um dia passar o rifle para um de seus amigos, que morava num local ermo e vivia da venda do leite e da pele de cabras. Um rifle seria um presente útil, já que o rebanho de cabras de seu amigo, cujo nome suponho que fosse Abudulah, era constamente dimuinuído por incursões dos chacais que abundavam naquelas plagas deserdadas por Alah. Abdulah era casado e tinha dois filhos do sexo masculino - Youssef e, como já não mais me lembro do nome do outro, vamos chamá-lo de Omar. Youssef parecia ser o mais jovem e tinha fama de bom atirador, de modo que o rifle seria um instrumento útil em seu trabalho de apascentar as cabras do pai, atividade essa que desempenhava junto com Omar. Pois bem - num certo dia, no alto de uma das inúmeras montanhas daquele local, estão Youssef e Omar a apascentar as cabras do pai e começam a testar uma das qualidades que o tal rifle tinha - a de atingir um objeto que estivesse a três quilômetro de sua mira. Desse teste, encarregou-se Youssef por motivos óbvios e após uma ligeira disputa com Omar. Passava então, na estrada que cortava aquele ermo, um ônibus cheio de turistas. Sabe Alah porque o arteiro Youssef escolheu aquele alvo para o teste da distância. Afinal, o ônibus não estava tão distante assim. Seja como for, Youssef colocou o rifle em posição, mirou atentamente e disparou o tiro, que acabou acertando em cheio o peito de uma turista americana, esposa de um outro turista americano, já que naquêle ônibus, havia pessoas de outros países, a maioria dos quais fazia parte do G-8. Vendo a cena de longe, tinha-se a impressão de que a corte de Luiz XVI saíra a percorrer os domínios do rei, fazendo aqui e ali fartos e alegres convescotes, trocando entre si comentários nada elogiosos em relação aos súditos miseráveis que abundavam nos locais por onde passava e que os submissamente servia.

Pois bem - esse nobre americano, cuja esposa fora atingida pela bala disparada pelo insensato Youssef, morava em Los Ângeles e tinha um casal de filhos, que eram assistidos, vestidos e alimentados por uma ama, que viera do México e que estava em situação ilegal nas terras do Império Americano. Isso apesar de lá residir por longos dezesseis anos, ter residência fixa, pagar aluguel e impostos corretamente e com isso contribuir para a riqueza do Império e do rei. Naquele dia em que o tiro aconteceu, a ama, por nome Amélia, tinha um compromisso importantíssimo, num vilarejo de seu país natal. Em princípio fora proibida, mas depois obteve a permissão de comparecer ao casamento de seu filho. Esse era o compromisso. Como não tinha com quem deixar os filhos do nobre casal,  resolveu levá-los. Para tanto, entraram no carro de seu sobrinho, um mexicano jovem e provavelmente desempregado, desejoso de ingressar nas terras do Império e lá fazer fortuna, mas sempre impedido pela guarda da fronteira. Esse fato  alimentava no jovem e belo sobrinho de Amélia uma revolta surda contra o império e seu rei, fato esse que terá graves repercurssões. Já era tarde da noite, quando Amélia decidiu voltar para a casa de seus patrões, nas terras do império. Seu sobrinho já tinha tomado umas e outras em quantidade suficiente para deixar sua razão entorpecida e as emoções em ponto de bala. Pois bem - chegando na fronteira, o carro foi abordado por dos membros da guarda de fronteira. Essa guarda tinha por missão primordial impedir o ingresso dos bárbaros nas terras do império. Durante essa abordagem e após uma rápida troca de insultos, explode toda a revolta do sobrinho de Amélia contra o império, o rei e sua guarda. O impetuoso rapaz joga o carro contra as barreiras da fronteira, toma um trilho lateral e desaparece na escuridão do deserto. O guarda alerta os demais e a pobre Amélia e seu sobrinho passam a ser perseguidos como chacais devoradores de cabras. Para dificultar a perseguição movida pela guarda da fronteira, o sobrinho de Amélia faz com ela e as crianças do nobre americano saiam do carro. Promete que assim que conseguir se livrar da cruel e implacável guarda, voltará para apanhá-los e deixá-los são e salvos em sua residência. Contudo, tal não acontece e o dia surpreende Amélia e as pobres crianças em pleno deserto, sem saber para onde ir. Após muito sofrimento, Amélia avista uma viatura da guarda e dirige-se até ela. Desesperada conta sua estória e pede que ajudem-na a resgatar os filhos do nobre. De fato, as crianças são salvas, mas a pobre Amélia é presa e deportada para seus país de origem. As leis e decretos baixados pelo rei impediram-na de ficar, apesar de seus dezesseis anos de residência fixa, de pagar aluguel e impostos corretamente, de contribuir para a riqueza do rei e de seu império.Seu patrão foi incapaz de interceder por ela, em tão cruel momento de sua vida.

Enquanto Amélia cumpria sua triste sina, bem distante dali, sua patroa falecia. Só que sua morte foi precedida do sofrimento de alguns e da morte do pai de Youssef, Abdulah e de seu irmão, Omar. Tudo isso porque a notícia de que um habitante do império tinha sido baleado correu mundo e foi qualificada, pelas leis recentes baixadas pelo rei, como ato de terrorismo. Dessa maneira, os emissários do rei, instaram o governo local a encontrar e punir exemplarmente os autores de tão hediondo ato.E essa investigação e punição resultaram na morte do pai e do irmão de Youssef. E terminando essa fábula dos tempos modernos, enquanto isso acontecia com o nobre americano, com seus filhos, sua empregada e sua mulher, enquanto Youssef, eu pai e seu irmão eram perseguidos pela polícia de um governo lacaio do rei americano, no Japão, a polícia intima o executivo japonês a comparecer em uma delegacia e prestar declarações sobre a arma que um dia entregara, em nome da gratidão, para um marroquino chamado Hassam.

Essa estória, por envolver povos tão diferentes, com costumes tão diversos, falando línguas tão estranhas chama-se Babel. Esse nome, leva-nos àquela passagem da Bíblia onde é relatada a origem das diversas línguas, costumes e culturas que sempre separaram os povos do mundo. Dá uma idéia de confusão, incompreensão. Como sabemos, a incompreensão e a confusão também estão nas raízes dos preconceitos e desentendimentos que permeiam as relações dos  povos e das pessoas entre  si. Contudo, percorrendo a estória desse rifle concluímos que é grande o poder do rei que governa o império. Ele conseguiu, em pouco tempo acho eu, descobrir a origem do objeto cujo mal uso, matou um dos membros de sua nobreza, em terras tão remotas do império. Conseguirá, tenho certeza, descobrir a quem pertencia esse rifle antes de cair nas mãos do executivo japonês. Por tudo isso, por essa imensa capacidade de controlar tudo o que acontece em seu império, eu creio que ao invés de Babel, o título desse filme deveria ser Orwell.

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publicado por cacá às 10:25
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Sábado, 3 de Fevereiro de 2007

ROÇANDO NO ÔNIBUS

Nos últimos tempos andar de ônibus, coisa que já não era lá muito confortável, transformou-se num verdadeiro sacrifício. Talvez, visando a redução de custos e com isso elevar um pouco mais ainda seus lucros, os ônibus reduziram visivelmente seu espaço interno. Ficaram menos altos, corredor mais estreito, o espaço entre um assento e outro foi diminuído de tal forma que, aquela sensação de se estar comprimido dentro de uma lata de sardinhas aumentou e muito.

 Assim,  o que era antes uma coisa simples, como o fato de ir até a catraca para pagar sua passagem, transformou-se numa verdadeira odisséia, uma corrida de obstáculos, criando situações por vêzes risíveis, por vêzes constrangedoras para a maioria dos passageiros. Nos dias de hoje, praticamente todos os passageiros portam sacolas, mochilas, bolsas em sua ida para o trabalho. Tais objetos trazem dentro de si uma variada gama de coisas: agendas, cartões de banco, celulares, talões de cheque, bilhetes para pagar o transporte, carteiras, estojos de maquiagem, calcinha, absorvente, camisinhas, lubrificantes, cueca e porque não, marmita. Sim, isso mesmo, uma marmita, já que uma considerável parcela da população que usa esse tipo de coletivo, faz questão de comer a comida feita pela mama ou pela esposa, amante ou caso. Matam dois coelhos com uma só porrada - comem melhor e pagam bem menos.

 No entanto, a conjugação desses dois fatores-  diminuição da área de circulação dentro dos ônibus e passageiros portando penduricalhos de tamanho considerável, tem criado situações bizarras e cômicas. Já ouvi vários relatos de pessoas, cujo olfato foi atingido, em plena oito horas da manhã, pelo cheiro de feijão com linguiça, arroz, ovo frito. Culpa de algum comilão que não vedou bem sua marmita e mochila, fazendo com que essa última se abrisse, facilitando a queda da outra, a qual atingindo o solo do ônibus, abriu, deixando vazar seu conteúdo cujo cheiro é, via de regra, desagrável naquele horário do dia. Ou então, de pessoas que estavam sentadas, lendo o seu jornal favorito. De repente, sem mais, nem porquê, vê cair justamente na página que está lendo, um objeto pequeno, de forma retangular, feito de um tecido bem leve e delicado e que parece estar manchado de sangue. Segundos depois, percebe que se trata de um absorvente feminino (seria isso um pleonasmo?), o qual por inexperiência, imperícia, imprudência ou incúria de sua usuária foi colado dentro de sua bolsa ou mochila, que mal fechada se abriu, deixando cair aquele objeto, denunciando assim a condição fisiológica de sua portadora.

 Quando o passageiro é do tipo que tem peso maior que o maioria da população, a situação se complica mais ainda. Já devidamente espremidos naquele corredor polonês, os pobres passageiros se dobram qual frágeis arbustos ante a passagem daquele katrina de músculos e ossos. É comum nessas ocasiões ouvir-se pessoas reclamando baixinho, outros dirigindo olhares ferinos para o dito passageiro, enquanto outros dão suspiros, tossem ou emitem grunhidos e outros ruídos impublicáveis. É também muito comum nesses momentos, os passageiros que estão sentados, terem o alcance de sua visão subitmente dimuído por  todo o tipo de penduricalho usado pelos passageiros do assim chamado sexo frágil e, por alguns outros que, não sendo do mesmo sexo, usam os mesmos tipos de adorno. Dessa forma, pulseiras, brincos, colares, pendem de pescoços, pulsos e orelhas, como cortinas turvando a visão dos que estão sentados.

 Na sexta-feira, eu tomei o Jabaquara-Tremembé para ir ao trabalho. Já estava um pouco atrasado, de modo que percebendo que o ônibus estava lotado, não pude me dar ao luxo de esperar pelo próximo. Dei o sinal, ingressei no ônibus, me acomodei como pude antes da catraca. Sempre desço no último ponto da Vinte e Três de Maio, não havendo por isso, necessidade de enfrentar aquele mar de mochilas e bolsas, já que onde eu desço, desce também a maioria dos passageiros. Um fato muito engraçado aconteceu. Há um ponto de embarque na altura da Beneficiência Portuguesa e ali entrou no ônibus uma senhora baixinha e bem acima de seu peso. Trajava um vestido justo, com decote meio arredondado, cuja borda era ornamentada por uma espécie de bordado, todo feito de uma coisa que parecia vidrilho. Pois bem - essa senhora, ao se dirigir para a catraca, encostou-se numa outra que estava em pé, a meu lado. Por um desses caprichos da sorte, um dos vidrilhos do decote, se enganchou nas costas da blusa da outra, transformando-se num sério problema a ser resolvido, pois era visivelmente um obstáculo ao direito de dir e vir de sua portadora, a passageira baixinha e bem acima do peso. Bastante constrangida, pedindo desculpas o tempo todo, tentava essa passageira desenroscar o tal vidrilho. Só que para fazê-lo era obrigada a se encostar mais ainda na vítima e, como o ônibus corria um pouco, para não cair, a baixinha, dona do decote, se viu obrigada a enlaçar a outra pela cintura, enquanto tentava soltar o maldito do vidrilho. Olhando de longe parecia que a baixinha estava encoxando a outra, roçando como se fosse uma cadela no cio. A vitíma desse roça-roça involuntário estava vermelha como uma pimenta, grunhia alguma coisa. Alguns senhores e senhoras presentes faziam de tudo para conter o riso.

 Para alívio de ambas, o vidrilho tarado se soltou e sua dona passou voando pela catraca. Descemos no mesmo ponto, na Avenida Vinte e Três de Maio. Ela subiu correndo a Rua do Ouvidor, dobrou na Rua Riachuelo e desapareceu. Espero que tenha tido um bom fim de semana.
 

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publicado por cacá às 16:52
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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2007

FAZENDO NECESSIDADES EM MARROCOS

As informações oferecidas pelos guias turísticos,sejam impressos, sejam em carne e osso, normalmente tratam dos aspectos culturais e de lazer de um certo local e também de suas belezas naturais. Dificilmente, um guia turístico fornece informações sobre hábitos de higiene de um povo ou de uma certa região ou país. Creio que isso seja uma falha lamentável, já que o conhecimento de alguns desses hábitos ajudaria e muito os pobres mortais que àquele local se dirigiram para gastar a graninha, amealhada a duras penas no transcorrer de sabe-se lá quanto tempo. Por exemplo - nós, brasileiros, sabemos que em qualquer local ou muquifo desse país, conseguir tomar um banho não é coisa de outro mundo. Sabemos que tomar um banho, seja de chuveiro, seja de caneca e bacia ou até mesmo no córrego, tanque, lago ou rio mais próximo é coisa simples. Basta apenas perguntar pro primeiro que aparecer. Os brasileiros estão entre os únicos, senão os únicos povos do mundo que têm o hábito do banho diário. Chingar a mãe e ficar sem tomar banho são coisas que por vêzes terminam em briga nessa terra de Santa Cruz. Já o mesmo não acontece quando o cidadão, em plena viagem, sente que precisa depositar algumas "flores" no vaso sanitário. Não é sempre que você encontra, por essas estradas que cortam esse torrão, um banheiro limpo, cheirosinho, com um vaso sanitário rescendendo à limpeza. Via de regra, são quase que pocilgas o que nos é oferecido como local para que façamos nossas necessidades, sejam elas formadas por materias pastosos ou líquidos. Os cidadãos do sexo feminino, coitadinhos, são os mais prejudicados, principalmente quando o material a ser expelido pertence ao grupo dos líquidos. A natureza, nesse pormenor, favoreceu aos homens - em qualquer matinho, esquina meio escura, atrás de um poste, arbusto ou árvore o homem pode abrir a braguilha e "tirar água do joelho", em outras palavras, dar uma boa mijada, sem ser incomodado. Para a mulher a coisa já é mais complicada. Além de não poder ser em qualquer matinho ou capoeira, e muito menos atrás de postes ou árvores, a mulher precisa, necessáriamente enxugar "o que foi usado". Caso contrário, as consequências costumam ser desastrosas para ela e para os que a rodeiam. E é aí que mora o perigo - se essa pobre filha de Eva não estiver portando um lenço de papel ou algo que o valha e, se não tiver conhecimentos básicos sobre plantinhas do mato, ela corre um grande risco de enxugar "o que foi usado" com uma felpuda e macia folha de urtiga, vegetalzinho abundante nos matinhos, capoeiras e quiçaças brasileiras. E isso ocorrendo, não se sabe o que é pior - ficar na fedentina, ou passar o resto do dia se coçando mais que macaco no qual jogaram pó-de-mico. Quem já teve uma parte de seu corpo atingida por esse pequeno exemplar do reino vegetal, sabe bem do que estou falando*.

Bem, essa longa introdução foi necessária para dizer-lhes que, se algum dia forem passar umas férias em Marrocos, não se esqueçam de colocar o papel higiênico entre os ítens de primeira necessidade a comporem sua bagagem. Aliás, o papel higiênico deveria nos acompanhar, fôssemos ou não ao Marrocos. Já cansei de chegar de viagem em casa de amigos e depois de fazer "aquilo", ter que me valer de uma folha velha de jornal, passagem da empresa de ônibus ou avião, escova de dente (eco), meia ou cueca velha ou até mesmo cartão de visita, para deixar o "lilico" minimamente limpo e saudável, já que cheiroso, é impossível.

Entretanto, porque dar um especial destaque ao Marrocos? Bem gentem, dias atrás li a respeito de um hábito meio esquisito dos marroquinos e foi então que conclui ser o papel higiênico um material que todos dever ter ao alcance da mão, caso queiram conhecer aquele país do mundo islâmico. A tal matéria afirmava que no Marrocos, os banheiros públicos principalmente, não são dotados de vasos sanitários como os nossos, onde você senta e deixa rolar. Lá, aqueles objetos são idênticos àqueles encontrados nos banheiros de algumas fábricas, onde você precisa ficar de cócoras, ou de "coque" para expelir suas "flores ou pérolas".

Prosseguindo, a matéria relatava que a característica marcante desses banheiros públicos era a inexistência do papel higiênico. Em seu lugar, na parede do lado direito e do lado esquerdo (para os canhotos) havia uma fenda suficientemente comprida e larga para que se pudesse nela introduzir a mão. Em cima da fenda, havia um aviso onde se lia a seguinte mensagem escrita na língua local, em francês, inglês e espanhol: "introduza sua mão nessa fenda para limpá-la". Obviamente se conclue, com uma certa dose de asco e horror, que no Marrocos não tem jeito - depois que usou, tem que limpar com os dedos da mão. E, ao mesmo tempo fica no ar uma questão - como é executado esse processo de limpeza? O que existe na tal fenda misteriosa, que basta introduzir as mãos para tê-las limpas, logo em seguida?

Na sequência, o artigo esclarece que atrás dessas obscuras fendas fica uma criança, menino ou menina pouco importa, com um porrete nas mãos. Nota - a Unicef deveria fazer alguma coisa, pois trata-se aberta e claramente de exploração descarada do trabalho infantil. Pois bem, depois que o incauto viajante introduz sua mão maculada pelos seus próprios dejetos (argh, eco) o garotinho ou garotinha dá uma tremenda porretada nos dedos do pobre e infeliz viajante. Ora, todo o mundo sabe o que acontece quando recebemos uma pancada nos dedos da mão. Automaticamente, como um ato reflexo e involuntário, enfiamos os dedos atingidos na boca à procura de alívio para a dor lancinante. Evidentemente, esse gesto tem como consequência deixar os dedos limpos, esclarecendo, portanto, o mistério encerrado no aviso, acima das fendas: "introduza sua mão nessa fenda para limpá-la".

Finalizando,conclue-se que se tal método é eficiente para resolver o problema da falta de papel higiênico, no entanto, ele cria outro - o da boca suja e mal cheirosa. E com isso, podemos afirmar que, além do papel higiênico, é de suma importância o turista colocar creme dental e algum esprei antibacteriano em sua bagagem, quando for ao Marrocos. Para falar a verdade - é melhor não ir ao Marrocos. Pra quê ir a um local tão distante para passar por situação tão vexatória? Pra limpar com as mãos, a gente faz por aqui mesmo, sem tanto custo e sem tanto estresse.

*OBS.: Fica aqui uma sugestão para a medicina genética ou para a mãe natureza - que a terminação, através da qual a mulher deixa rolar a sua "cascata dourada", fique no dedo mindinho. Assim, quando sentir que a hora fatal se aproxima, basta apenas correr para um cantinho, esticar o mindinho e .... Isso, sem contar na possibilidade de usar essa capacidade como arma contra machos mal intencionados que, usando palavras maliciosas e chulas ou fazendo gestos obscenos, humilham e constrangem essas pobres criaturas de Deus

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publicado por cacá às 09:15
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