Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

CARTA PARA UM TURISTA

 

Senhor, Senhora  Turista: até mais ou menos domingo da semana vindoura, esse país vai se transformar numa folia só, de norte a sul, de leste a oeste. Pelo menos é o que dizem, pelo menos é o que você deve ter visto em algum cartaz de sua agência de viagem, ou quem sabe, em algum canal de televisão de seu país. Contudo, eu caro senhor ou senhora, não se deixe iludir - isso que você viu no cartaz da agência de turismo, ou então, no noticiário de seu canal favorito de televisão, não passa de uma conspiração, um arranjo, um acordo entre poderosas empresas de turismo, aliadas a interesses não muito louváveis de meios de comunicação e também, interesses de dirigentes de escolas de samba e assemelhados. Essa associação de interesses tem por único objetivo arrancar todos os dólares ou euros possíveis  de seu bolso, oferecendo-lhe em contrapartida, muita dor de cabeça.

 

  Para não tomar muito de seu precioso tempo, deixo abaixo algumas observaçõe sobre esses dias em afirmam  que o meu país se entrega à folia.  Espero que a leitura e a reflexão sobre elas, possam auxiliá-lo a compreender melhor o espírito desses dias e aproveitar melhor sua viagem. Se você não entende português, sinto muito. Os meus conhecimentos de inglês, que suponho ser a língua que quase todo o turista estrangeiro conhece, não são suficientes para expresssar aquilo que aqui pretendo. Sendo assim, peço-lhe a gentileza de arrumar um tradutor.

 

  Bem, vamos ao que interessa - para começar, eu gostaria que ficasse bem claro que para uma grande parte dos brasileiros, o carnaval é uma ocasião para descanso. Arrisco a dizer que, talvez a maioria dos brasileiros prefira ir para lugares mais calmos, longes da folia. Talvez prefira ficar em casa, por a vida em dia, visitar amigos e parentes que há muito não via. Sim, meu caro turista, não sei se você sabe, mas os brasileiros trabalham, dormem, lêem, comem, vão ao banheiro, nascem, morrem, enfim, têem um cotidiano muito parecido com o seu. Estão também e de certo modo, submetidos a problemas muito parecidos com o seu - insegurança quanto ao futuro, indecisão sobre o que fazer na vida e com a vida, medo de perder o emprego, de ser vítima de violência, etc. Por particularidades muito nossas e a respeito das quais você não tem culpa nenhuma, nossas inseguranças, nossas indecisões quanto futuro, nosso medo de ser vítima da violência é muito maior, muito mais intenso que o seu.

 

  Com isso, pretendo dizer que não somos aquele bando de homens e mulheres seminus que saem pelas ruas, dançando loucamente, a procura de sexo e samba. Essa é a imagem que provavelmente você, meu caro turista, deve ter visto no cartaz daquela sua agência de viagem, ou então, no seu jornal ou canal de teve favorito. E, como já lhe expliquei logo no início, tudo não passa de uma tramóia, um jogo sujo de interesses, que tem por objetivo fazer você gastar a mais não poder, deixá-lo liso, duro e insatisfeito, para que assim você volte no ano que vem e nos próximos, procurando realizar o irrealizável, sacou, my dear? Claro, meu amigo, minha amiga, você encontrará por aqui muita gente de ambos os sexos dispostos a corresponder à essa imagem. Entretanto, asseguro-lhe que eles não passam de uma parcela muito pequena da população. E olha, corto minha cabeça se essa turminha não foi contratada pelo seu agente de viagem, como parte do pacote. E se eu estiver certo, meu Deus, que prejuízo - você pagará duas vêzes pelo mesmo "benefício". O primeiro pagamento será feito ai, no seu país no ato de compra da passagem, já que a "coisa" estará incluida no pacote e a segunda vez, será aqui, na hora de fazer a "coisa", certo? E reze para que nesse momento não ocorra nenhuma complicação, nenhum "poblema". Porque se ocorrer, você estará frito - não haverá agente de viagem algum para socorrê-lo. Você terá que se virar com o negão ou a mulata, o garotão ou a garotinha e, ainda por cima, um policial  e um delegado bem, mais bem mal intencionados, falando uma língua que até eu que aqui nasci, não compreendo.

 

  Agora, vamos e  venhamos - porque você não deixa nossas mulheres, nossas crianças, nossos jovens e nossos homens em paz? Já não basta a devastação que o seu país aqui provocou, quando foi metrópole? Sim, porque se nós, os brasileiros, os latino americanos somos Terceiro Mundo, subdesenvolvidos, emergentes você acha que assim o somos, por livre e espontânea vontade? Você acredita que as riquezas que o seu país daqui usurpou, a "elite" econômica e intelectual que seu país aqui gerou, não tem nada em haver com o nosso estado atual político, ecônomico e social? Concordo com você - seu país e você não podem ser responsabilizados por tudo. Entretanto, que vocês ao menos reconheçam a sua parcela de responsabilidade. Já seria um bom negócio, você não acha? E você não concorda que uma boa demonstração desse reconhecimento seria deixar em paz nossos jovens, nossas crianças, nossas mulheres e nossos homens? Porque degradá-los mais do que já estão?  Tá bom - vai que você tenha uma verdadeira compulsão pela pele, pelo cheiro, pelo tempero do brasileiro e não possa vir aqui sem dar uma. Se é assim, fique sabendo que você pode desfrutar disso tudo, sem gastar tanto assim, sem ir para tão longe e  sem se  arriscar tanto. É simples - dê um pulo em algumas quebradas de São Francisco, Los Ângeles, Miami, Nova Iorque, Boston, Lisboa, Londres, Paris, Madri, València,Barcelona,Milão, Roma, Nápoles etc. Nesses locais, você encontrará o mesmo que aqui, por um preço módico, que caiba no seu bolso e, por motivos óbvios, com mais segurança. Acho até que o seu agente de viagem poderá informá-lo. Que tal lhe parece?

 

  E pra finalizar (já é tarde da noite e eu estou morrendo de sono) -  se você procura Carnaval, diversão da boa, por favor, fuja, mas fuja mesmo do roteiro Rio-Salvador-Recife-Fortaleza, ou em outras palavras, fuja do quarteto samba, axé, frevo e maracatu. Arrume um amigo brasileiro, peça para se hospedar na casa dele. E peça para que ele o leve pra dançar num clube da cidade - no Rio, há alguns ótimos. Em São Paulo, também e em algumas cidades do interior, idem. Se a tua estrela estiver no auge, quem sabe você poderá - meu Deus, que glória - encontrar um corso de carnaval ou então  uma banda ou um bloco de rua. Já pensou que maravilha? Você se divertirá a valer e quem sabe até surgirá uma paquera gostosa, um namorico do bom com um brasileiro ou brasileira e, que termine no altar, com muito beijo e muita felicidade. Eu estou delirando? Pode ser - mas isso também acontece no meu país e aposto que o seu agente de viagem nunca te contou. Ah - e aquele dinheiro que você trouxe a mais pra pagar pela "coisa"?  O negócio é o seguinte - faça uma doação pra uma instituição de caridade, que cuide de crianças, de velhos e outros tantos desvalidos dessa vida. Caso ninguém conheça, pergunte pra Deus, quero dizer, entre no Google e coloque na busca palavras como generosidade, caridade, essas coisas, Contudo, não pergunte pro seu agente de viagem. Mesmo que ele saiba, ele nunca te dirá. 

 

Meu caro amigo, minha cara amiga - sem mais para o momento, aqui me despeço. Não sei quando será nosso próximo contato. Me desculpe se em alguns trechos fui irônico e caustico. Sou daqueles que ainda acredita no valor pedagógico de um bom puxão de orelhas. Sou daqueles que ainda acredita que o respeito mútuo é um bom começo - para qualquer coisa! 

  

  

  

 

 

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Sábado, 26 de Janeiro de 2008

BOBAGENS DO ANO QUE PASSOU

 

2007 terminou ontem e, sinceramente, dele pouco ou quase nada me vem à memória. Não consigo me recordar de pronto de algum fato - morte ou nascimento de famosos, alguma hecatombe natural ou causada pelo homem., nada. Parece que o  ano que não existiu. A não ser pela realização dos jogos panamericanos no Rio e da escolha meio fajuta do Brasil para sediar a copa do mundo de 2014,  o resto passou em brancas nuvens. Sim, claro, me lembro de alguns fatos, tipo Paris Hilton e Britney Spears, as escadalosas de plantão, fazendo album barraco ou dando alguma baixaria. Coisas como vomitar na cara de alguém, mostrar a cor da calcinha ou mostrar que estava sem calcinhas, essas coisas de quem não tem berço, como se dizia no meu tempo. Pobre humanidade - atolados que estamos nessa confusão e profusão de imagens e informações, passamos o tempo a fazer poses, olhamos maravilhados para nossos reflexos nas câmeras de tevê, de celulares, de computadores. Creio que terminaremos nossos dias como micos de circo - olhando para nós mesmos e fazendo caretas, micagens e gracinhas, numa comprovação cabal de que a raça humana tem o potencial de uma ameba.

 

  Das coisas que me recordo, duas vêm da área política - uma delas é um projeto de lei do deputado Clodovil, e cuida da obrigatoriedade do exame de toque de próstata. Como não procurei ler o projeto na íntegra, fiquei sem saber em que situações esse exame seria obrigatório. A idéia em si não é má. Pelo menos no Brasil, a quantidade de machos que morrem de câncer de próstata por puro preconceito, é enorme. Entretanto, acho que o deputado poderia muito bem gastar sua massa encefálica na pesquisa de idéias que visassem a quebra do preconceito contra esse tipo de exame. Creio que seria mais produtivo, pois a maioria dos machos no Brasil e no mundo, trata o precioso orifício como algo estranho a seu corpo. Evidentemente, a idéia do deputado Clodovil prestou-se a todo o tipo de chistes e piadas de bom e, principalmente, de mau gosto. Uma delas, falava da formação de grupos de machos gaúchos e nordestinos, que iriam marchando até Brasília para protestar contra o projeto daquele nobre representante do povo. Um dos grupos denominava-se "Na Minha Ninguém Põe" e o outro "Tira o Dedo do Meu Pudim" - entenderam o trocadilho?

 

  O outro projeto de lei, é de um deputado federal do PT, pelo Acre. Propõe aquele nobre legislador que as donzelas que engravidarem em virtude de estupro, recebam uma ajuda do governo federal. Tal ajuda consistirá no pagamento de um salário mínimo todo o mês, até o fruto do estupro completar dezoito anos. Óbvio está que a condição sine-qua-non para a percepção do benefício é a não realização do aborto. E tem mais - o governo federal se comprometeria a fornecer ajuda psicólogica gratuita para convencer a vítima a não induzir o aborto. O tal deputado é apoiado por grupos religiosos, principalmente das igrejas católicas e evangélicas. As feministas protestaram furiosamente e com razão. A imprensa caiu matando e tascou um apelido no projeto - "Vale Estupro". Naturalmente, se tal projeto converter em lei, imaginem a quantidade de estupradas que irão surgir aqui e ali, buscando ao auxílio prometido. E como separar o joio do trigo, ou seja, como distinguir entre o estupro real e a estória forjada?  Uma das características do estupro é a realização do ato contra a vontade de um dos participantes.. Ora, todos sabemos que não é raro existirem casais onde a esposa é, eventualmente,  obrigada a ter relações com o marido. Vai dai que forjar uma estória, é um passo..

 

  Vem também de 2007  e isso não é uma bobagem , a idéia mais nítida para mim, do que seja globalização. Uns dias antes do final do ano, eu precisei falar com o suporte técnico do fabricante de antivírus, que uso em meu computador. Procura daqui, remexe dali, descobri um "0800" e liguei. Me atendeu um rapaz muito educado, falando um português com sotaque de Portugal. Achei muito estranho aquilo tudo, entretanto, respondi às suas perguntas, relatei o meu problema e iniciamos os procedimentos para a resolução do problema.  No meio da coisa, eu perguntei de onde o rapaz estava falando. Ele respondeu-me dizendo que estava em Dublin, na Irlanda. Antes que eu pudesse dizer algo, ele me esclareceu que o fabricante concentrou o suporte técnico para o mundo todo, na Irlanda. E que ele, Marco, fazia parte do grupo destinado a dar assistência para usuários de língua portuguesa. Cá entre nós, o sotaque dele não era muito carregado, o que foi minha salvação. Que me desculpem os eventuais leitores portugueses - eu tenho muita dificuldade para compreender o  português falado com sotaque de Portugal. Filme português, somente com legendas, caso contrário fico boiando o tempo todo. Voltando ao assunto, Marco contou-me que tem 27 anos, parte de sua familia reside em Portugal e parte nos Estados Unidos. Ele saiu do torrão natal por falta de oportunidades e graças a seus conhecimentos de informática e às facilidades para qualquer vivente comunicar-se com outro, conseguiu esse trabalho na Irlanda. Coisa estranha e malévola tem esse capitalismo financeiro e globalizante - transformou o mundo numa aldeia e, ao mesmo tempo, promove a desestruturação de instituições como família, empresa, nações. Acho que essa estória vai acabar mal, muito mal.(ai me esqueci da vinda do Papa -  fica pra próxima e ah... também se fosse outro papa, mais progressista)


  

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publicado por cacá às 01:08
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