Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007

UMA MISS DO BALACOBACO

A família se compõe por uma mãe na casa dos quarenta. Não fica claro onde trabalha e o que faz, tem-se a impressão que ela é secretária ou algo parecido. Simpática, assume o papel de botar panos quentes, apaziguar  conflitos, manter a família unida, ainda que precariamente. O pai, um cara bonitão, idade muito parecida com a da mãe, é um pobre coitado !Acredita piamente no esfarrapado dogma americano de que, quando se tem vontade, tudo se consegue. Para sobreviver, passa os dias ministrando palestras ou conferências a respeito de um livro que ele mesmo escrevera, mas que nunca conseguira publicar. Tal livro tem como tema central um programa de nove ou dez passos para se alcançar o sucesso. O filme inicia com ele terminando mais uma de suas palestras, para uma meia dúzia de tristonhos e nada motivadores gatos-pingados. O irmão, um adolescente cujo maior sonho é o de ser piloto da aeronáutica. Mais tarde descobrirá que, por um descuido da mãe natureza, seu sonho nunca será concretizado. O pobre é daltônico, está de ante-mão reprovado, fora, excluído. Nos primeiros fotogramas, fica-se sabendo que ele, após ler Nietze, fez um voto de silêncio que durará até ser incorporado à aeronáutica. Fazendo parte acidental desse núcleo, o irmão gay, não sei se da mulher ou do marido. Recém saído de uma tentativa de suícidio, é retirado do hospital e levado para a casa. Algumas cenas depois, teremos noção de seu drama - professor de Literatura de uma universidade, especialista e conhecedor profundo da obra de Marcel Proust, apaixona-se perdidamente por um de seus alunos. Perde o rumo, o prumo quando o objeto de sua paixão é arrebatado por um professor rival. E pira de vez, desistindo de viver, quando o mais cobiçado prêmio em Literatura é ganho pelo mesmo professor, que já havia-lhe roubado o romeu de sua vida. Fechando o quadro, o avô, pai do pai, suponho eu. Recém egresso de casa de repouso, de onde fora gentilemente convidado a se retirar. Tudo, porque tinha um comportamento heterodoxo para pessoas de sua idade. Entre outras coisas, ele era bem chegado em drogas pesadas,  especialmente heroína.

É no meio desse universo cambaleante, de perdedores, como dizem nossos irmãos do norte, que encontramos a garotinha, filha do casal desenganado, irmã do adolescente taciturno, neta do avô pirado e sempre "colocado" e sobrinha de um tio com fortes tendências suicidas e depressivas. É no meio desse universo de poucas luzes , que reluz a simplicidade,  inocência, espontaneidade e o entusiasmo de nossa pequena heroína, que  será chamada de Sunshine daqui por diante, já que esqueci completamente o nome da personagem.

O filme se desenvolve em torno da viagem dessa família até Los Ângeles, onde Sunshine iria concorrer ao título de pequena miss Sunshine. Fiquei com a impressão de que esse concurso era uma espécie de treinamento para Miss Universo. De qualquer modo, a garotinha entrou nessa porque, numa das eliminatórias ficara em segundo lugar e porque também a primeira colocada não pode mais participar. Coisas do destino! O seu entusiamso quando soube da notícia, desperta os brios da família que se une em torno do projeto de levá-la até Los Ângeles, onde será realizada a final. Como estão duros, vão de quatro rodas mesmo. E o veículo é uma pobre van, quase uma lata velha, que algumas centenas de quilômetros depois pifa, obrigando seus passageiros a empurrá-la depois de cada parada. Alguns quilômetros antes da chegada, o avô morre e, não podendo parar para proporcionar-lhe um funeral adequado, a família decide depositar seu corpo no porta-malas da van.Chegam em cima da hora, quase não conseguem a inscrição. Entretanto, como acontecem em filmes desse tipo, essa pedra no caminho de nossa heroína é removida e, afobados entram todos no local do concurso. Sunshine e sua mãe correm em disparada ao camarim, iniciando os preparativos para sua apresentação. Um detalhe importante: sabe-se que no número que apresentará na prova final, há o dedinho do avô. Mas, não se sabe absolutamente em que ele consiste.

Enquanto Sunshine se arruma, no palco desfilam as outras pequenas  concorrentes - meninas, miniatura de mulheres, ou melhor, simulacros decadentes de feminilidade! Pintadas, maquiadas em exagero, penteados à la anos sessenta (ou a época do filme é dos anos sessenta?). E, sendo assim, dá-lhe muita cor berrante, muito cabelo armado no melhor estilo panetone, muito laquê, muito rímel, muito de tudo. Os números apresentados não fogem ao trivial infantil - pulinhos, saltos, cambalhotas, declamações, gracinhas, essas coisas que os adultos acham que as crianças devem fazer, quando chegam visitas em casa. Essa corrente de bobagens é interrompida quando chega a vez de Sunshine. Vestida como se deve vestir uma criança, com simplicidade e elegância. Com segurança e determinação, diz que a dança que apresentará é dedicada a seu avô (pelo menos, eu tenho a impressão que ela disse). A fita é colocada e a nossa pequena notável dá os primeiros passos, deixando bem claro que sua apresentação nada tem em comum com a das concorrentes. E não tem mesmo - à medida que os compassos vão se sucedendo, o que se vê não é uma menina e sim, uma mulher dançando no melhor estilo "boquinha da garrafa". Requebra, rebola, passa língua nos lábios, remexe os quadris, lança olhares sensuais à platéia. A câmera vai lentamente deslizando, mostrando uma platéia escandalizada, atônita e, quando volta para o palco vemos uma Sunshine tirando as primeiras peças de sua roupa, sinalizando que tudo aquilo vai terminar em strip tease. É então, que entra em cena a hipocrisia de nossa moral - levantando a bandeira da família e dos bons costumes, a presidente do júri entra no palco e convoca o pai da pequena a acabar com aquilo tudo. Relutante, ele sobe ao palco, hesita um tanto e solta a franga, ou seja, adere ao rebolado da filha. Era o gesto que faltava - o restante da família se coloca em cena, e como crianças dançam com o mais puro prazer. A cena termina com a família de mãos dadas, em ciranda, esbanjando alegria de viver. Evidentemente, são expulsos do palco, da cena e do concurso.E aprendem uma lição - nesta sociedade é permitido ter uma aparência revolucionária e só - que ninguém ouse ir mais além. Lembrei-me de um filme que vi, há anos atrás. Era um filme do Jean-Luc Godard, onde uma professora (Annie Girardot ou Anouk Aimée?) dizia para um aluno seu - seja radical, exija o impossível!

Quando o filme termina, o avô já foi enterrado e o restante da família retorna para a van. Há um clima de resignação, de sonho que  acabou, de que tudo não passou de brincadeirinha. A pequena Sunshine conserva o semblante sereno, enigmático como uma esfinge. 

sinto-me:
publicado por cacá às 01:04
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