Sexta-feira, 2 de Março de 2007

DONA NEIDE

Para quem ainda não teve a honra de conhecer, Dona Neide é uma senhora de uns setenta e três ou setenta e quatro anos, que mora num dos prédios do meu  condomínio. De ante-mão, esclareço que o condomínio onde moro, apesar de estar na Vila Mariana, é um condomínio de classe média baixa, para não dizer outra coisa. Ficou pronto no final dos anos setenta, quando a idéia de condomínio se restringia a moradias confortáveis,  grandes áreas e muito verde em volta, distante dos grandes centros. Atualmente, qualquer conjunto de prédios, com alguns centrimetros quadrados de verde, um tanque com uns dez litros de água, um cômodo com uma chaleira soltando vapor, se intitula condomínio.


 Bem, Dona Neide é dentista aposentada. Fazia parte dos quadros do funcionalismo,  prestando serviços em consultórios dentários, nas escolas do Estado. Aposentou, mas não parou. Culta, bem informada, ainda tem fôlego para tomar conta dos netos e prestar serviços voluntários.Pertence a um tipo de classe média, que está em extinção em nosso país. Aquele tipo de classe média que, apesar dos preconceitos, tratava as classes mais inferiores com nobreza e dignidade. Que não  via na pobreza uma oportundidade para a demogogia e formação de curral eleitoral, como tem feito esse nosso famigerado presidente Lula e seus comparsas, com a implantação do  Bolsa Família e correlatos, transformando o pobre num mendingo sem escrúpulos, a viver às expensas do Estado Brasileiro. E claro -  perpetuando uma geração de miseráveis e ignóbeis, cujo voto apenas contribuirá para mantê-los na linha da sobrevivência, transformando os atuais dentetores do poder numa espécie de dinastia à la Hugo Chaves, Fidel Castro e outras excrescências políticas que infestam essa nossa América Latina. Foi da mesma estirpe de Dona Neide que saíram as grandes cabeças que muito influenciaram nosso país na Educação, Antropologia, Biologia, Economia,  etc. Infelizmente, nossos últimos governantes, com algumas exceções,  não saíram da mesma raíz que originou Dona Neide.


 Pois bem - no sábado da semana em que menino João Hélio foi barbaramente assassinado, encontrei-me com ela, próximo à banca do jornal. Após os cumprimentos e comentar sobre a onda de calor que ameaça transformar  todos em churrasquinho, falamos um pouco do horror e do pânico que se abateu sobre o país, em decorrência daquela coisa inominada que foi a morte do pobre garoto carioca. Em seguida, fizemos alguns comentários nada elogiosos, referindo-se  à atuação de nossos políticos. E foi então, que aproveitando uma pausa da conversa, Dona Neide dirigiu olhar para algumas nuvens no éu. Parecia buscar apoio e autorização para o que ia dizer. E, suas palavras foram: "esse overno está nos transformando em feras". No momento, automaticamente, concordei. Depois que nos despedimos, pus-me a refletir e só então que percebi o alcance das palavras de minha simpática vizinha.


 Freud afirmou que não existe civilização, sem uma dose de repressão. Ou seja, para que possamos viver em sociedade, faz-se necessários que alguns de nossos impulsos sejam lapidados, controlados. O estudo da evolução das leis através dos séculos, parece ser um importante argumento a favor da tese de Freud.Por outro lado, a Religião, a Arte funcionam como importantes válvulas de controle de impulsos anti-sociais, transformando energias destrutivas em motores poderosos de aperfeiçoamento e criação do gênero humano. Com tudo isso, chega-se à conclusão que não existe uma essência do humano, ou seja, não nascemos humanos, mas sim, nos transformamos em humanos. E, se o "ser humano" não é uma essência, mas sim, consequência de  evolução e de aprendizado, da mesma forma que aprendemos, poderemos desaprender a ser humanos, por assim, dizer. "Ser humano" é, em poucas palavras, consequência de um aprendizado, de um treinamento constante.


 Entretanto, quando nos deparamos com personalidades como as dos assassinos sequenciais, monstros sanguinários como Hitler ou mesmo os assassinos do garoto João Helio, ou então crianças que até uma determinada idade não tiveram nenhum contato com outro ser da espécie humana, o que se percebe é que existe algum elo solto na cadeia. Alguma coisa não bate - parece que falta a esses elementos algum traço, algum registro,  que até hoje não sabemos identificar qual seja, mas cuja ausência nos impede de classificar e atribuir a esses indivíduos a característica de "ser humano". E assim, trazemos de volta ao palco a idéia de que existe a essência do "ser humano", essência essa que se manifesta na ausência daquele elo ou de outro qualquer.


 Seja como for, essência ou aprendizagem, a plenitude do "ser humano" só tem condições de desabrochar e evoluir num contexto onde variáveis importantes  controlem o lado da Besta, o lado da Fera. Entre essas variáveis, a existência de uma legislação que regule de modo justo as relações entre os vários grupos de uma sociedade, é de suma importância. E não é só a existência dessas leis que é um importante fator de controle de nosso lado "B", ´por assim dizer. Igualmente importante é a aplicação dessas leis, a certeza de que sua transgressão acarretará para o infrator punição rápida e eficiente. Em nosso país, a sensação generalizada de impunidade tem contribuido e muito para o esgarçamento contínuo e cada vez mais profundo de nosso tecido social.


 A título de conclusão, resta saber o que fazer com aqueles que, de modo claro e evidente, demonstrem não possuir esse elo, esse registro que confere o status de "ser humano". O que fazer com aqueles que, igualmente de modo claro e evidente, demonstrem ter desaprendido como ser humano. Prisão perpétua? Pena de morte? Nesses momentos, seria de muito valor deixar a hipocrisia de lado e encarar o problema de frente. Essência ou aprendizagem, o fato é que alguns indivíduos não são e jamais serão alçados ao status daquilo que temos como característica inconfundível do humano, seja porque nunca a tiveram, seja porque a perderam e nunca a recuperarão. O que fazer com esses elementos? Como defender o restante do grupo, para que esse não venha a ser ameaçado pela mesma espécie de corrupção? Com a palavra nossos cientistas, nossos administradores, nossos juízes, nossos legisladores, nossa Nação.

 

 
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sinto-me:
publicado por cacá às 03:03
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