Sexta-feira, 25 de Março de 2011

SOSSEGADO E CRUCIFICADO

 

Isso me ocorreu há algumas semanas e a cena também. Sei que estávamos em pleno verão, um calor escaldante, um sol de fritar ovos no asfalto. Eu fora até uma agência da Caixa Federal, fazer um depósito. Esta agência fica na esquina da rua Líbero Badaró, esquina com a avenida São João, no centro da cidade. Pra quem não conhece, um pouco acima fica a Praça Antonio Prado, que é onde a avenida São João inicia. Uma pracinha deliciosa, com árvores e sombras acolhedoras e um coreto simpleste lindo. O cruzamento da São João com a Líbero fica num declive, a uns cem metros das sombras preguiçosas da praça Antonio Prado. Vale dizer que, em dias de verão, atravessar a avenida São João naquele cruzamento equivale a pagar um pouco dos pecados que se cometeu, tamanho é o desconforto provocado pelo sol e pelo calor. Explicando melhor - como todo o mundo sabe, no verão o Sol fica perpendicular ao Trópico de Capricórnio e São Paulo fica bem nas fuças do dito trópico, ou seja, de março a dezembro os paulistanos são agraciados pelo astro rei, em toda sua plenitude. Haja protetor solar!

          Com esses considerandos é de se imaginar meu estado de espírito quando me dirigia para agência da Caixa, descendo a Líbero, por volta de 14 horas. Não via a hora de entrar naquele prédio refrigerado, um verdadeiro oasis em meio ao deserto de asfalto. Entrei no prédio, tomei um fôlego e fui até um dos balcões do saguão, próximo aos caixas eletrônicos e, muito lentamente, comecei o preenchimento do envelope para o depósito. Terminando o preenchimento, dei-me ao luxo de ali ficar por mais uns minutos, desfrutando daquele friozinho tão acolhedor. Distraia-me vendo as pessoas subirem ou descerem pela Líbero, com ou sem guarda-sol, mas todas andando rápido, fugindo dos carinhos vulcânicos do Sol.

        Pois bem, estava eu olhando essa movimentação, quando vi um casal que se destacava do resto da multidão. Como estavam subindo a rua, na direção do Largo São Bento, não pude ver o rosto deles. Ele era um rapaz bem magro, sem camisa, uns panos enrolados na cabeça, à moda de turbante. Ela, magra também, cabelos compridos, presos atrás da cabeça. Os dois vestiam essas calças saruel, coisa que está muito em moda para os meninos e meninas. Ou a roupa deles estava meses sem lavar ou então o tecido de que foram feitas era cor de sujeira. Amarradas às costas de cada um deles, um desses mochilões imensos, onde os jovenzinhos dos dias de hoje costumam transportar seus badulaques e pertences. Apesar do peso, os dois subiam a Líbero com pressa, fui acompanhando a subida até que eles se perderam, ao longe, no meio da multidão que subia para o largo São Bento.

         Depois que eles sumiram de meu olhar, fiquei ainda uns bons minutos olhando pra aquela multidão, um olhar sem propósito, inerte. E foi então que a sensação que a inércia do olhar encobria, veio à tona. Aqueles dois, com aquelas roupas, com aquela pressa, com aqueles mochilões, não sei porquê, me lembravam José e Maria quando chegaram a Belém, horas antes do nascimento de Jesus. Bem, vamos fazer de conta que, por um desses mistérios da física, José e Maria estavam em Belém de dois mil atrás, procurando uma hospedaria para passar a noite. Procura daqui, procura dali, encontraram um beco meio escuro, que não era um beco, mas sim, a entrada de um túnel do tempo. Ingressaram no túnel e saíram dele em São Paulo, naquela quinta deste verão. Daí, subiram até o largo São Bento, foram para a Luz, da Luz entraram na marginal Tietê e foram até a ponte da Vila Maria. Lá chegando, resolveram descansar um pouco. As horas foram passando, os dois cansados, com um pouco de sede e fome, a noite chegando - resolveram ficar por ali mesmo. Mais tarde, José saiu para procurar um bar, um mercado e comprar algo para comer e beber. Maria ficou por lá, acompanhada por um cachorro que ali já estava, um grupo de mendigos que também ali já estava e uns meninos viciados em crack que não estavam lá, apenas passavam, mas lá decidiram ficar. Maria começou a sentir algumas dores e quando deu conta de si, estava dando a luz. A garotada ajudou no parto, um deles tinha uma faquinha que cortou cordão do bebê. Entãos os mendigos e os meninos improvisaram um fogão com o material que encontraram sob a ponte, puseram sobre ele uma panela com água, começaram a preparar uma sopa de pacotinho. Quando José voltou, trazendo uns pães e uma garrafa de coca-cola, além de um amigo de última hora foi assim que os encontrou - uns sentados, outro agachados em torno da panela, tomando sopa com colheres improvisadas. O bebê, mais ou menos limpo, mamava no peito de Maria.

 

E foi assim que, naquela quinta-feira do verão deste ano nasceu Jesus da Ponte da Vila Maria, ou Jesus da Ponte, nome pelo qual será conhecido mais tarde. Que destino terá ele quando crescer? O zero de conhecimento que temos sobre essa vida, sobre esse mundo, sobre o nosso destino e também porque Jesus da Ponte ainda não chegou a completar um ano siquer, permite dizer que o futuro dessa criança é um grande ponto de interrogação.Só existe uma certeza - não será crucificado porque não existem mais judeus, apesar de existirem muitos judas. O império romano há muito tempo se foi levando Pilatos, o bom ladrão, Barrabás, Simão Cirineu e a crucificação foi  abolida há séculos, como método de punição. É prudente lembrar que existem situações piores que a crucificação, nas quais Jesus da Ponte poderá se envolver - ser justiceiro, atuar no tráfico de órgãos e drogas, ser sequestrador, ladrão de bancos, batedor de carteiras, ser mestre na "saidinha de bancos", morar em Fukushima, morar no lixão e a pior de todas - ser político. Pensando bem -  Jesus da Ponte, se eu fosse você, tomava o caminho de volta a tempo de nascer em Belém e morrer sossegado e crucificado em Jerusalém.

 

Pra quem não conhece - essa foto é do  Largo São Bento, um dos personagens de nossa estória. A rua que dele sai é a Rua Líbero Badaró, onde encontrei José e Maria, horas antes do nascimento de Jesus.

 

sinto-me:
publicado por cacá às 01:06
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