Sexta-feira, 20 de Abril de 2007

O CHEIRO DO RALO - O FILME QUE EU VI

Nessa organização social onde temos que vender nosso trabalho para ganhar nosso sustento,  pouco tempo ou quase nada resta para que se dedicar também a algo que é muito importante - o cuidado e o desenvolvimento de si mesmo. Na tentativa de suprir essa lacuna, essa organização pretende e, na maioria das vêzes consegue, impor sua norma onde o "ter" ocupa o lugar do "ser". Assim, o meu prestígio, o reconhecimento de que sou objeto, a posição social que ocupo decorrem daquilo que tenho e não daquilo que sou. E, a consequência inevitável é a confusão que se instala entre aquilo que tenho e aquilo que sou. Padrões de comportamento então são traçados de modo a atenuar e, sempre que possível evitar, o conflito que se instala dentro do indivíduo. Quando esse controle é rompido, o indivíduo toma contato com o vazio que tem dentro de si e começa a sentir o cheiro do seu próprio ralo.

 

    Em  "O Cheiro do Ralo", Lourenço é um jovem, como tantos outros que vemos passar pelas calçadas, pelas ruas - uma pessoa comum.  Está sempre só, anda cabisbaixo, pouco ou quase nada se sabe a seu respeito. Apenas que trabalha numa espécie de loja de penhores e que está prestes a casar com uma mulher também  comum, só que  extremamente ciumenta. Ganha o seu sustento, por obra e graça da desgraça do próximo. Sua casa de penhores está plena de objetos dos mais diversos, que ali foram deixados por quem teve que se desfazer deles. A relação que Lourenço tem com os seus "clientes" é crua - a todos ele suga - suga os objetos, suga as estórias. E paga aquilo que quer, como e quando quer. Ele está com as mãos no controle - quem dele precisa, tem que pagar, sem choro, nem vela.

 

     Dessa relação, cuja essência é a exploração e o deboche, Lourenço vai montando sua persona, um verdadeiro frankstein. Aprendeu que os objetos que ali são penhorados têm por trás deles uma estória. Já que se apossou dos objetos, também se apossa das estórias que cada um deles traz. Um dia, um dos cliente penhora um olho de vidro. Depois que se apossa dele, Lourenço transforma o olho de vidro, no olho de seu falecido e desconhecido pai. E, é por intermédio desse olho que ele passa a registrar os fatos de sua vida. O olho que tudo vê, tudo controla e tudo avalia. Entretanto, nem tudo é perfeito na vida ! Lourenço tem um problema - o cheiro do ralo que se desprende do banheiro de sua loja e do qual tenta se diferenciar, afirmando que o cheiro não é proviniente dele, mas sim do próprio ralo. Até que um dia, um dos clientes demonstra-lhe  ser ele, Lourenço, o dono do cheiro, já que é ele a única pessoa que usa a privada. E como o ralo recebe o que vem da privada...

 

    E como nem tudo é perfeito na vida, Lourenço tem também uma paixão - se apossar da bunda da garçonete, que o atende no boteco onde ele costuma engolir algo para enganar a fome. Como a única forma de relação que conhece é a da posse, ele faz a sua oferta. A reação da garçonete contudo, não se encaixa no script de Lourenço e mais - deixa patenteado que algo está podre nele, Lourenço, jogando-o definitivamente para o ralo.

 

    Nas cenas seguintes, a garçonete desaparece, levando à exasperação o pobre do Lourenço e criando condições para que o controle seja afrouxado e que do ralo saia o que nele foi oculto. Nessa altura dos acontecimentos o ralo deixou de ser peça da instalação hidraúlica da casa de penhores, para ser o ponto através do qual o atormentado Lourenço tenta ver o mundo, enxergar o que há dentro de suas próprias entranhas. Como era mais ou menos previsível desde o princípio do filme, Lourenço morre, vítima de uma de suas próprias vítimas.

 

    Não concordo com as opiniões de alguns que dizem que o final estragou o filme. Nessa organização social em que vivemos, o controle é peça chave para o assim chamado sucesso. Sucesso esse, que para ser mantido, exige cada vez mais controle. E a morte é controle dos controles. Ela aniquila o ser, apaga conflitos, é a eterna felicidade. É o próprio paraíso, como define uma das últimas falas de Lourenço.

 

    "O Cheiro do Ralo" é um filme para pequenas platéias. Há momentos em que ele leva ao riso, quase engana dando a impressão de ser uma comédia. Entretanto, não se deixe enganar - o que os fotogramas mostram é a profunda solidão, a ausência de referências de nossos tempos. Selton Mello é a grande revelação do filme - com grande habilidade consegue passar para a platéia as nuances daquela atormentada personagem - a rispidez, a ternura, a angústia, a ironia, o desamparo. Definitivamente, um dos bons momentos do cinema nacional.

 


 

 

sinto-me:
publicado por cacá às 04:10
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