Sábado, 5 de Maio de 2007

LADRÃO OU LARÁPIO?

 

   Acho que minha curiosidade pela origem das palavras se deve ao fato de eu, desde tenro infante, não conseguir entender uma expressão muito empregada meus pelos familiares, na época. A expressão, que para mim era o mesmo que javanês arcaíco, era "dizechega". Qualquer arte ou molecagem que um de nós aprontava, lá vinha a famosa expressão, concluindo frases como essa: "se você continuar fazendo isso, vou te bater com a cinta até você dizechega". Mal eu ouvia essa palavra, me quedava mais rígido e hirto que um pedaço de aroeira. E não era sem razão - na minha cabeça, a tunda que se anunciava deveria ser algo monstruosa, a ponto de me fazer pronunciar uma palavra cujo significado não tinha a mínima idéia.  Anos depois, quando ingressei no ensino primário é que fui entender que "dizechega" nada mais era que o singelo "dizer chega". O falar popular tinha apenas suprimido o erre, com catastróficas consequências para o meu rol de molecagens, mas, sem dúvida alguma, em benefício de meu irmão caçula. Não fosse o "dizechega" provavelmente ele não teria hoje uma das orelhas.

 

    Mais tarde, quando ingressei no ginásio e depois no colégio tive matérias como Latim e Gramática Histórica, o que aguçou mais ainda aquela curiosidade infantil. Aprendi coisas como o significado dos prefixos, um deles muito falado por bocas adolescentes da atualidade. Trata-se do famoso "hiper", do qual eles usam e abusam: hiper-chateado, hiper-depressa, hiper-produzido, etc.  Aprendi também que palavras como "coelho", tiveram origem em seu próprio diminutivo em latim, no caso, cuniculum. E que outras palavras, como o prosaico joelho, que vieram também do seu diminutivo (genuculum), sofreram  transformações em sua pronúncia e escrita. No caso, o "genuculum" originou "genuclo", que mais tarde deu a luz a "geolho"e do qual, finalmente, nasceu o "joelho". Não duvido dessas afirmações, embora nunca tenha lido que alguns dos  componentes da frota de Pedro Álvares Cabral, tenha saltado da caravela onde estava e "machucado o geolho".

 

    Bem - dias atrás, sem ter muito o que fazer e após ouvir o noticiário da televisão, por motivos óbvios comecei a matutar se as palavras ladrão e larápio eram sinônimos uma da outra e se poderiam ser usadas indiferentemente. Na tentativa de não cometer nenhuma gafe, apelei para o material de estudo e pesquisa que disponho, em minha modesta biblioteca doméstica. Tal material consiste em dois compêndios, adquiridos em ocasiões diversas. Um deles chama-se "A Vida Íntima das Palavras", de Deonísio da Silva e o outro, ""Dicionário de Curiosidades Etimológicas" de A. Mauricea Filho. Este segundo, foi encontrado num sebo, caindo aos pedaços (os dois, o sebo e o livro). O tal sebo ficava na Praça João Mendes e o prédio onde se instalava, há tempos foi demolido. A edição é bem antiga, de 1961.

 

    Segundo o dicionário,  a palavra ladrão veio do grego látron, através do latim latro. Em grego, o látron era uma palavra derivada do verbo latréo, cujo significado era servir. O látron era o salário devido aos servos mercenários e empregados domésticos. Em Roma, o latro passou a denominar o servo mercenário, o soldado em geral, todo aquele que servia a troco de salário ou remuneração fixa ou variável,  quer fosse livre, quer fosse escravo. Até aqui, tudo bem - os servos trabalhavam e no final de um certo período de tempo, recebiam o seu latro. Não há condições de se saber se o período de tempo entre o pagamento de um latro e outro era de um mês, uma semana, quinze dias, etc. Há poucas informações sobre a vida trabalhista na Roma dos Césares. Uma coisa é certa - semana inglêsa não havia, posto que ainda não existiam  seus criadores, os inglêses. À medida que o império romano foi entrando em decadência, foi se desarticulando, vários fatos desagradáveis aos cidadãos começaram a ocorrer. E um desses fatos era o de que os soldados romanos, irritadíssimos com o atraso ou mesmo o não pagamento de seus latros, foram aos poucos se transformando num bando perigoso de salteadores à mão armada, tudo pilhando, tudo saqueando, sem coração e sem misericórdia. Essa decadência dos costumes, como era de se esperar, contaminou também o significado da palavra látron. Ao invés de designar os incorruptíveis soldados imperais, como o fazia outrora, adquiriu um novo significado, nada louvável - o de caracterizar aqueles mesmos soldados que se dedicavam ao infame esporte de surrupiar os bens dos pobres cidadãos. E essa mancha na vida do império ficou para sempre registrada através da palavra "ladrão", transformação do outrora nobre e distinto látron.

 

    Já a palavra larápio, tem uma origem menos complicada, porém não menos improba. Segundo "A Vida Íntima das Palavras" havia na antiga Roma um pretor, cujo nome era Lucius Antonius Rufus Appius. O pretor era uma espécie de juiz entre os romanos. Pois bem - esse tal de Lucius era corrupto a mais não poder. Tinha o péssimo hábito de fabricar e vender sentenças a quem melhor pagasse. Como se percebe, o costume é antigo. Ele assinava  fruto de sua mercância jurídica,  abreviando o nome para L.A.R. Appíus. Essa rubrica originou o neologismo larápio, que passou a denotar gatunos e ladrões, e já ingressou no português com esse sentido, nada edificante. 

 

    Voltando à questão original,  percebe-se que ladrão e larápio, a rigor não podem ser usados como sinônimos. Enquanto que o termo ladrão faz referência a um indivíduo que, sozinho ou em bando, se apossa de um bem do próximo, a mão armada ou não, o termo larápio aponta para o celerado que age de modo sutil e mais sofisticado. O larápio faz-se valer de sua posição social e  profissional e geralmente emprega meios intelectuais para perpetrar crimes e malfeitos muito mais danosos que aqueles cometidos pelos ladrão. Para tornar os conceitos um pouco mais claros, vamos a alguns exemplos. Qual seria o termo mais apropriado para um juiz que, atuando numa partida de futebol, venha a roubar para um dos times - ladrão ou larápio? Bem, dizem que a voz do povo é a voz de Deus. E o que  a voz do povo, que  costuma frequentar os estádios de futebol, diz em alto e bom som que tal juiz é ladrão.  Aliás, o juiz está entre a primeira, senão a maior  vítima dos impropérios que fluem da boca dos frequentadores de uma partida de futebeol. A outra personagem que recebe a mesma "generosa" acolhida é a mãe do juiz. Bem, voltando à vaca fria, se num determinado momento da partida o juiz marcou ou deixou de marcar um pênalti, com toda certeza podemos enquadrar esse juiz na classe dos ladrões. Isso porque, naquela situação de campo, com todo o mundo berrando, xingando sua esposa, mãe e filhas, ofendendo sua virilidade,  jogando coisas no gramado, nada mais natural que um ser humano venha a se confundir e deixar de marcar uma falta ou até mesmo um pênalti. Lembrem-se do que faziam os soldados romanos quando seus soldos não eram pagos ou não eram pagados a tempo de saldar certos compromissos. Pois bem - é dentro dessa ótica que a atitude desse juiz deve ser analisada e julgada. Mas, se esse ato de favorecer ilicitamente uma das equipes, faz parte de um esquema maior, como era o esquema que regia a arbitragem dos juízes que compunham a Máfia do Apito, então o designativo de ladrão é totalmente inadequado. Nessa hipótese, o comportamento do juíz na partida  é  o elo final de uma cadeia que envolve  corrupção de jogadores, técnicos e dirigentes de equipes e muito provavelmente,  lavagem de dinheiro e otras cositas. Nesse caso, sai de cena o ladrão e sobe ao palco a figura do larápio. Se bem que, convenhamos, vai ser muito esquisito o Morumbi em peso, gritando "juiz larápio" ao invés do clássico e tradicional "juiz ladrão".

 

    Em relação aos ilustres componentes da classe dos magistrados, que têm feito questão de desfilar diante das camêras de tevê, na parte policial do noticiário noturno, não resta a menor dúvida que o termo larápio lhes cai como uma luva. Estão envolvidos em toda a espécie de maracutais, negociatas, cambalachos, desvio de verbas do Erário Nacional, remessa ilegal de grana para o exterior, formação de quadrilha, etc. E a exemplo de seu ilustre ancestral, o pretor L.A.R.Appius, fazem tudo isso usando suas  prerrogativas constitucionais para dar pareceres e sentenças que favorecem quadrilhas formadas por membros do Legislativo e do Executivo,  representantes do empresariado e até componentes do próprio Judiciário. Num futuro não muito distante, poderemos ter também a figura do juiz ladrão - isso mesmo! Da forma como nossas leis trata os poderosos, com a permissividade que grassa por  toda a sociedade, não será nada espantoso, você num belo dia, ao passar diante do Forum da Praça João Mendes, ser abordado por desses membros da turma da toga e, ser obrigado a passar-lhe todos os seus pertences e haveres. "Meritíssimo, o que é isso?" protestará você e antes que tente pronunciar outra palavra de espanto ou revolta, a figura do malfeitor togado já terá desaparecido entre o labirinto de salas daquele forum.

 

    Para os membros do Legislativo, do  Executivo e do Empresariado,  o termo que lhes cai melhor  é sem dúvida alguma larápio. Contudo, vendo a situação em perspectiva tudo leva a crer que um dia sejam dignos do denominativo de ladrões. Essa suspeita é fortemente confirmada se nos recordarmos do esgoto fétido que aflorou por ocasião das CPI dos Correios, dos Sanguessugas, das Ambulâncias, dos Anões do Orçamento, do Roubo de Cargas, do Narcotráfico e Roubo de Armas, etc., etc., etc.. E claro - das figurinhas impagáveis que surgiram: os marcos valérios, os joão alves, os delubios, os sílvios, os hildebrandos. E das expressões que foram cunhadas, coisas tipo "despesas não contabilizadas" para significar "caixa dois". Os maridos que gastam parte substancial de seus vencimentos com a filial e não com a matriz, agora possuem uma excelente desculpa para justificar a falta de dinheiro para esse ou aquele singelo luxo de sua cara metade: "tive despesas não contabilizadas, minha querida, compreenda".

 

    Para finalizar e, voltando à origem e evolução das palavras e de seu sentido,  a classe política e empresarial tupiniquim poderá deixar sua "preciosa" contribuição à gramática histórica da língua portuguêsa, caso persista nesse  tipo de comportamento. É bem possível que daqui há alguns anos as palavras bandido, ladrão, malfeitor, meliante, infrator, assassino sejam substituídas por uma só - político - da mesma forma que a palavra látron passou a designar ladrão. Dessa maneira, não causará nenhum espanto se ouvirmos no noticiário que "políticos encapuzados invadiram condomínio de luxo", ou então, "políticos invadem favela causando pânico, confusão e morte", ou, "político relata com frieza como estuprou e matou jovem indefesa" e "comerciantes fecham as portas mais cedo com medo dos políticos".  Igualmente, não provocará nenhum tipo de estranheza frases tais como: "não gosto de chegar tarde em casa, pois tenho pavor dos políticos", "tenho medo da periferia porque lá tem muitos políticos". Essa mudança de sentido da palavra político afetará velhas citações, dando-lhes novas roupagens, como por exemplo: "a ocasião faz o político", ou, "político que rouba político tem cem anos de perdão". Isso sem contar que aquele velho e tradicional pedido de socorro não mais será pronunciado. Em seu lugar ouviremos: "pega político" ou então "socorro, polícia, tem político aqui". E, finalmente, em virtude dessa mudança de significado, conjugada com o caráter classista e discriminatório das leis e justiça brasileiras,  teremos enormes possibilidades de ver um político na cadeia.

 

 

 

 

 

 

sinto-me:
publicado por cacá às 04:53
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1 comentário:
De _estrelinha_ a 11 de Maio de 2007 às 20:21
ola, kero convidar te para visitares o meu blog pois fui apanhada numa brincadera e convido te para participares. para saberes mais vai la ...
bjinhos
bom fim de semana

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