Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

A ESTÓRIA DE UM RIFLE OU BABEL

Era uma vez um executivo japonês que foi passar férias no Marrocos. Lá chegando,  incluiu algumas atividades ligadas ao tiro em seu roteiro turístico. Nesse sentido, foi muito bem assessorado por nativo de nome Hassam. Tão bem Hassam desempenhou seu papel, que o executivo japonês, em sinal de gratidão  presenteou-o com o rifle antes de sua partida. Voltou para o Japão, dando sequência à sua vida de executivo, pai de uma garotinha surda, de mais ou menos uns 17 anos, jogadora de voleibol, em plena montanha-russa emocional como costumam ser os adolescentes. A mãe e esposa cometera suicídio, não se sabe quando e de que forma.

Enquanto isso acontecia, na terra árida do Marrocos, Hassam resolveu um dia passar o rifle para um de seus amigos, que morava num local ermo e vivia da venda do leite e da pele de cabras. Um rifle seria um presente útil, já que o rebanho de cabras de seu amigo, cujo nome suponho que fosse Abudulah, era constamente dimuinuído por incursões dos chacais que abundavam naquelas plagas deserdadas por Alah. Abdulah era casado e tinha dois filhos do sexo masculino - Youssef e, como já não mais me lembro do nome do outro, vamos chamá-lo de Omar. Youssef parecia ser o mais jovem e tinha fama de bom atirador, de modo que o rifle seria um instrumento útil em seu trabalho de apascentar as cabras do pai, atividade essa que desempenhava junto com Omar. Pois bem - num certo dia, no alto de uma das inúmeras montanhas daquele local, estão Youssef e Omar a apascentar as cabras do pai e começam a testar uma das qualidades que o tal rifle tinha - a de atingir um objeto que estivesse a três quilômetro de sua mira. Desse teste, encarregou-se Youssef por motivos óbvios e após uma ligeira disputa com Omar. Passava então, na estrada que cortava aquele ermo, um ônibus cheio de turistas. Sabe Alah porque o arteiro Youssef escolheu aquele alvo para o teste da distância. Afinal, o ônibus não estava tão distante assim. Seja como for, Youssef colocou o rifle em posição, mirou atentamente e disparou o tiro, que acabou acertando em cheio o peito de uma turista americana, esposa de um outro turista americano, já que naquêle ônibus, havia pessoas de outros países, a maioria dos quais fazia parte do G-8. Vendo a cena de longe, tinha-se a impressão de que a corte de Luiz XVI saíra a percorrer os domínios do rei, fazendo aqui e ali fartos e alegres convescotes, trocando entre si comentários nada elogiosos em relação aos súditos miseráveis que abundavam nos locais por onde passava e que os submissamente servia.

Pois bem - esse nobre americano, cuja esposa fora atingida pela bala disparada pelo insensato Youssef, morava em Los Ângeles e tinha um casal de filhos, que eram assistidos, vestidos e alimentados por uma ama, que viera do México e que estava em situação ilegal nas terras do Império Americano. Isso apesar de lá residir por longos dezesseis anos, ter residência fixa, pagar aluguel e impostos corretamente e com isso contribuir para a riqueza do Império e do rei. Naquele dia em que o tiro aconteceu, a ama, por nome Amélia, tinha um compromisso importantíssimo, num vilarejo de seu país natal. Em princípio fora proibida, mas depois obteve a permissão de comparecer ao casamento de seu filho. Esse era o compromisso. Como não tinha com quem deixar os filhos do nobre casal,  resolveu levá-los. Para tanto, entraram no carro de seu sobrinho, um mexicano jovem e provavelmente desempregado, desejoso de ingressar nas terras do Império e lá fazer fortuna, mas sempre impedido pela guarda da fronteira. Esse fato  alimentava no jovem e belo sobrinho de Amélia uma revolta surda contra o império e seu rei, fato esse que terá graves repercurssões. Já era tarde da noite, quando Amélia decidiu voltar para a casa de seus patrões, nas terras do império. Seu sobrinho já tinha tomado umas e outras em quantidade suficiente para deixar sua razão entorpecida e as emoções em ponto de bala. Pois bem - chegando na fronteira, o carro foi abordado por dos membros da guarda de fronteira. Essa guarda tinha por missão primordial impedir o ingresso dos bárbaros nas terras do império. Durante essa abordagem e após uma rápida troca de insultos, explode toda a revolta do sobrinho de Amélia contra o império, o rei e sua guarda. O impetuoso rapaz joga o carro contra as barreiras da fronteira, toma um trilho lateral e desaparece na escuridão do deserto. O guarda alerta os demais e a pobre Amélia e seu sobrinho passam a ser perseguidos como chacais devoradores de cabras. Para dificultar a perseguição movida pela guarda da fronteira, o sobrinho de Amélia faz com ela e as crianças do nobre americano saiam do carro. Promete que assim que conseguir se livrar da cruel e implacável guarda, voltará para apanhá-los e deixá-los são e salvos em sua residência. Contudo, tal não acontece e o dia surpreende Amélia e as pobres crianças em pleno deserto, sem saber para onde ir. Após muito sofrimento, Amélia avista uma viatura da guarda e dirige-se até ela. Desesperada conta sua estória e pede que ajudem-na a resgatar os filhos do nobre. De fato, as crianças são salvas, mas a pobre Amélia é presa e deportada para seus país de origem. As leis e decretos baixados pelo rei impediram-na de ficar, apesar de seus dezesseis anos de residência fixa, de pagar aluguel e impostos corretamente, de contribuir para a riqueza do rei e de seu império.Seu patrão foi incapaz de interceder por ela, em tão cruel momento de sua vida.

Enquanto Amélia cumpria sua triste sina, bem distante dali, sua patroa falecia. Só que sua morte foi precedida do sofrimento de alguns e da morte do pai de Youssef, Abdulah e de seu irmão, Omar. Tudo isso porque a notícia de que um habitante do império tinha sido baleado correu mundo e foi qualificada, pelas leis recentes baixadas pelo rei, como ato de terrorismo. Dessa maneira, os emissários do rei, instaram o governo local a encontrar e punir exemplarmente os autores de tão hediondo ato.E essa investigação e punição resultaram na morte do pai e do irmão de Youssef. E terminando essa fábula dos tempos modernos, enquanto isso acontecia com o nobre americano, com seus filhos, sua empregada e sua mulher, enquanto Youssef, eu pai e seu irmão eram perseguidos pela polícia de um governo lacaio do rei americano, no Japão, a polícia intima o executivo japonês a comparecer em uma delegacia e prestar declarações sobre a arma que um dia entregara, em nome da gratidão, para um marroquino chamado Hassam.

Essa estória, por envolver povos tão diferentes, com costumes tão diversos, falando línguas tão estranhas chama-se Babel. Esse nome, leva-nos àquela passagem da Bíblia onde é relatada a origem das diversas línguas, costumes e culturas que sempre separaram os povos do mundo. Dá uma idéia de confusão, incompreensão. Como sabemos, a incompreensão e a confusão também estão nas raízes dos preconceitos e desentendimentos que permeiam as relações dos  povos e das pessoas entre  si. Contudo, percorrendo a estória desse rifle concluímos que é grande o poder do rei que governa o império. Ele conseguiu, em pouco tempo acho eu, descobrir a origem do objeto cujo mal uso, matou um dos membros de sua nobreza, em terras tão remotas do império. Conseguirá, tenho certeza, descobrir a quem pertencia esse rifle antes de cair nas mãos do executivo japonês. Por tudo isso, por essa imensa capacidade de controlar tudo o que acontece em seu império, eu creio que ao invés de Babel, o título desse filme deveria ser Orwell.

sinto-me:
publicado por cacá às 10:25
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

posts recentes

TESOUROS PERDIDOS

I WON'T CRY FOR YOU, ARGE...

VOLTEI PRO MORRO

SE...

SOSSEGADO E CRUCIFICADO

AO SUL DO EQUADOR

HABEMUS DILMA

FILHO DE PEIXE, NEM SEMPR...

arquivos

Maio 2015

Julho 2014

Abril 2014

Junho 2011

Março 2011

Novembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

tags

todas as tags

blogaqui?

já visitaram esse blog

subscrever feeds