Sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

EM FÉRIAS, COM JESUS E OS IPÊS

 

  Dizem que trabalhar é bom,  o trabalho enobrece e dignifica o homem. Sei lá, depende de que tipo de trabalho. Trabalhar para os outros, acho que nem sempre é bom, nem sempre enobrece e dignifica o homem, a mulher, quejandos e assemelhados. Sendo assim, umas férias, um bocadinho de tempo sem fazer nada, além de balançar o beiço, quejandos e assemelhados é "bão", né? E assim sendo, nos meados de setembro, catei minhas tralhas e cacarecos, dei um sumiço.  Nada de cruzeiros marítimos ou terrestres. Aéreos - nem pensar, não tô a fim de virar estatística e ver o meu ilustre nominho compondo uma lista de habitantes do andar de cima. Além do quê, a grana tá curta demais e os juros do cheque especial assustam até o demônio.

 

    Nessas situações e considerando as circunstâncias acima e mais outras variáveis, tomei um ônibus e fui para a cidade onde me  cresci e estudei, antes de me mudar para a capital. Fui para Osvaldo Cruz, a princesa da Alta Paulista. Não sei porque alta, porque a cidade fica numa depressão em relação à capital do estado, acho que a quatrocentos metros acima do nível do mar. Cidade pequena, meio esquecida no sudoeste do estado. Local confortável para minha estadia não me faltou, visto que irmãos e sobrinhos ainda residem por lá.

 

    Cidade pequena, onde o terreno é quase plano, permitindo que a vista se alongue a quilômetros e onde o sol se recolhe bem devagar. Parece que se afoga no mar de poeira vermelha, filha da seca de inverno. Graças ao aquecimento global, fui contemplado pela graça, elegância e beleza dos ipês amarelos, rosa e brancos desabrochando agora, competindo inesperadamente com as primaveras vermelhas, brancas, amarelas e lilases. Desnecessário dizer que essas representantes da flora estavam irritadíssimas, estrassadíssimas, tendo pitis a todo momento e hora. Comentava-se que entrariam com uma representação contra os ipês, junto à comissão julgadora do "Primavera Show and Concert Week".

 

    Com ou sem representação, desfrutei da beleza daquele espetáculo e, nos intervalos aproveitei para colocar minha leitura em dia. Terminei de ler "A Sangue Frio" e devorei "América", "Eu, Claudius, Imperador" e "História da Bíblia - Cristianismo Nascido Como Complô". O primeiro, sem comentários - já é bastante conhecido, principalmente depois do filme "Capote", aclamado e "oscarado". Já o segundo, "América" é uma ficcão que trata do encontro catastrófico  de dois mundos, colados na geografia, abissalmente distantes na economia e política - o mundo de Delaney, um cidadão de classe média alta, americano e californiano e o mundo de Cândido, um imigrante ilegal e mexicano. O terceiro é um romance escrito com base na autobiografia de Tiberius Claudius Drusus Nero Germanicus, trocando em miúdos, o imperador Claudio, sucessor de Calígula na lista dos césares.

 

    A idéia central do quarto e último livro é muito interessante. O autor , o para mim desconhecido Archer William Smith, parte do princípio de que o cristianismo foi fruto de um complô. Envolvidos nele estavam João Batista, Simão Cirineu, José de Arimatéia, Caifás, Nicodemus e Bartolomeu, posteriormente cognominado Jesus. A finalidade desse complô era o de levar os judeus à uma rebelião, que ajudada pelos persas, terminaria por expulsar os romanos da Palestina. Essa rebelião fora  meticulosamente concebida por João Batista e Simão Cirineu, autores do projeto "O verbo se fez carne".

 

    Nesse projeto, Bartolomeu-Jesus, um carismático, bonito, simpático e mulherengo charlatão, nascido em Nazaré,  teria o papel de incitador das massas, através da pregação das "boas novas", ou seja, do evangelho. José de Arimatéia seria o patrocinador financeiro e relações públicas junto aos persas, já que além de podre de rico, tinha ótimos contatos na corte daquele país. Nicodemus e Caifás seriam os responsáveis pela validação dos atos de Bartolemeu-Jesus junto ao poderoso Sinédrio e por extensão, a todo povo judeu. Pena que o complô não deu muito certo. Na hora "h", Bartolomeu-Jesus, percebendo que havia uma grande possibilidade de dançar e dancar feio, consegue escapulir da cana no  Getsamâni (horto), deixando o pepino para Judas  Tadeu, que além de ser seu irmão de sangue, era práticamente sua cara. Bem, o resto eu não contarei, pois é tarde da noite, já bocejei trocentas vêzes. Além disso, o livro é baratinho e tem umas duzentas páginas, em letras grandes, ouviram? O autor não cita fontes, dando a entender que tudo foi coisa de sua cabeça. Em todo o caso, acho que vale a pena ler. Acho que daria um ótimo filme, no estilo humor negro. Será o que o Mel Gibson toparia fazê-lo?
 

  
 

sinto-me:
publicado por cacá às 05:29
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