Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

MARIE COTILLARD - UM HINO À PIAF

 

Valeu a espera, valeu até chegar um pouquinho atrasado. Há tempos que eu estava adiando, mas ontem, decidi assim, quase de última hora. Liguei para um amigo e lá fomos nós. Sabia e ainda sei poucas coisas sobre a vida dessa francesinha endiabrada, dona de uma garganta divina e que encantou e ainda encanta a França e o mundo. Para falar a verdade, dele eu me recordo do Hino ao Amor, La Vie en Rose, Padam, Je ne regrette rien - canções essas bastante conhecidas, tocadas quase sempre no rádio. Estamos falando de 1962 e muitos e muitos meses. Depois, lá pro final de 1965 ou um pouco antes, não me recordo com exatidão, me lembro de fotos suas, na revista O Cruzeiro ou Manchete, contando tudo sobre ela e seu mais recente namoradinho - um grego, vinte anos mais moço que ela. O nome dele era Theophanis Lamboukas, nasceu em 1936, morreu em 1970, de acidente de carro. Foi mesmo o último namoradinho dela. Era conhecido como Theo Sarapo e, não aparece no filme. Seu nome surge quase nos instantes finais, quando ela agonizante, pergunta por ele.

 

  Bem, continuando, vamos dar uma rápidas pinçadas em sua biografia, para que se esse artigo se torne um pouco mais inteligível.Pelo que vi, sua vida pré-fama não foi nada fácil. Nascida na primeira década do século passado (prestem atenção, século 20), filha de pai contorcionista e mãe cantora, sua infância foi um terror. O pai, convocado pela guerra, deixa o lar. A mãe para sobreviver, canta nas ruas de Paris e ela, sem nada entender acompanha-a meio apavorada. Claro, que sua vidã não era lá essas coisas, especialmente no quesito comida, moradia e afeto. Sem suportar mais a barra, a mãe decide ir para Constantinopla, uma espécie de Nova Iorque, daquele começo de século. Deixa a criança com sua avõ materna. Nisso, o pai volta do front e encontra a pobre coitada, jogada num catre, com uma avó doidona. Tira-a dali e leva para os cuidados de uma outra senhora, cujo parentesco não ficou bem esclarecido para mim. O importante é que essa senhora era dona de um bordel, onde a menina pode ter o conforto e afeto que um local desse pode proporcionar- sem ironias, certo? Foi adotada e amada pelas prostitutas. Teve uma doença que lhe afetou a visão, mas, curada graças à intercessão de Santa Teresinha de Lisieux, mais conhecida entre nós, por Santa Teresinha do Menino Jesus.

 

  Tudo estava indo legal, quando aparece o pai novamente e arranca a pobrezinha do bordel, levando-a para a vida itinerante do circo, novamente para a insegurança das ruas e inconstância dos afetos. É nessa sequência que aparece um dos momentos mais emocionantes do filme, quando ela, canta "A Marselhesa", num dos espetáculos que o pai fazia nas ruas, para faturar alguns trocados. Ali, em meio à miséria moral e social, seu canto surge límpido, como um grito de esperança. Em sua voz, as palavras da Marselhesa ressoam como o cântico de anjos, trazendo de volta o consolo, a fé, a esperança, num campo de guerra dessa vida, onde os sobreviventes ainda se amontoam.

 

  Na sequência, abandona o pai, arruma uma amiga e juntas vão para a batalha das ruas, como cantoras ambulantes. O filme nada sugere a respeito, entretanto, eu não ficaria escandalizado, se nessa batalha pelo pão-nosso-de-cada-dia, ela usasse outra coisa, além de sua voz. Afinal, vamos e venhamos, precedentes para tanto ela possuia e, se hoje, até garotinhas de classe média o fazem alegando "complementação de renda" para pagar os estudos universitários... Bem, nessa vida, pelas esquinas da vida, ela é descoberta pelo dono de um grande cabaré, mudando, então a trajetória de sua carreira, levando-a mais tarde para o sucesso e a glorificação.

 

  A produção do filme me pareceu bastante cuidadosa, como que querendo preservar sua memória, evitanto aspectos polêmicos de sua vida. Contudo, examinando o conjunto do filme, dá para se deduzir que Edith Piaf, não foi uma pessoa de contato e relacionamento fácil. Vindo de onde veio, passando pelo que passou, ela deveria ter um temperamento de dar brotoeja em sorvete. Eu suponho que alternasse momentos de grande exuberância, com outros de grande melancolia.Também suponho que, necessário ou não, ela fosse capaz de armar um barraco daqueles a troca de uma titica de nada. Imagine uma pessoa, a quem a vida tudo tirou, de repente, ver-se alçada à categoria de diva da música. Haja estrutura psicológica para suportar as cobranças de sua vida e as exigências da fama. Eu, hein, nem pensar... Porém, acho que apesar de tudo, a produção acertou, ao evitar esses aspectos mais folhetinescos de sua vida. O importante é que o filme mostrou quem foi Piaf, e sobretudo, deixou bem claro, que talento é coisa que se possue, não é coisa que se fabrique.

 

  Edith Piaf pertenceu a uma geração de verdadeiros artistas. Desses artistas que como ostras, filtram todo o veneno que vida a eles impôs e transformam esse universo de carências em pequenas jóias, que vão oferecendo aqui e ali, para quem quiser. De graça, apenas pelo prazer de produzir e oferecer. Sua vida, sua estória, sua arte formam uma coisa única, que eles realizam ao se entregarem completamente às suas paixões. Oferecem a seu público o que tem melhor. E o que tem de melhor é encenado ali mesmo, no palco de suas vidas, num espetáculo de vinte e quatro horas, que só termina quando a vida deixa o palco.Da mesma estirpe de Piaf, temos uma Billie Halliday e, em termos nacionais, porém com uma força criativa mais atenuada, um Cazuza e um Raul Seixas. Essa geração de artistas extingiu-se. O que temos hoje é um misto de "performer" com empresário, ou se assim o preferir, o "talento fabricado", aliado uma rede de propaganda e distribuição. Tai Madonna que não me deixa mentir. Falando dela, depois de sua morte, será que a vida de Madonna daria um filme? De que espécie - para ser exibido em salas de cinema ou em conferências a respeito de administração de empresas?

 

  Bem, eu contei muito pouco sobre o filme, não é mesmo? Mas foi proposital, foi só para despertar sua curiosidade, para fazê-lo sair de casa e ir até o cinema para vê-lo. Hum...não adianta, ainda não chegou às locadoras e duvido que chegue tão já. Portanto, é melhor se apressar. Se você é da minha geração, irá recordar dos velhos tempos e se comover até as lágrimas. Se você é de uma geração mais recente, porém, ainda se deixa tocar pelos absurdos do amor, há cenas de um romantismo que vou te contar. Quer um exemplo? A sequência na qual, ela sai do elevador com o namoradinho boxeador, que acabara de ganhar uma luta. A porta do elevador se abre e o que se vê? Um tapete amarelo, indo até a porta do apartamento, coberto de rosas vermelhas. Presente que ela havia preparado para ele. Très chic, não acha? Muito c'est si bon

  

  
  

sinto-me:
publicado por cacá às 09:47
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